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Para analistas, com a criação da nova holding, os fundadores Larry Page e Sergey Brin ficam com os negócios mais empolgantes. Sundar Pichai assume como CEO do Google

Alphabet é a nova empresa de Larry Page e Sergey Brin
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Alphabet é a nova empresa de Larry Page e Sergey Brin "dona" do Google

Na noite de segunda-feira (10), o Google pegou todos de supresa com o anúncio da criação de uma nova empresa, a Alphabet , que a partir de hoje está acima do próprio Google. Em uma carta aos investidores, Larry Page, um dos fundadores do gigante das buscas, explicava a novidade, a mudança na bolsa de valores (Alphabet Inc. no lugar de Google Inc.) e a promoção do vice-presidente de produto Sundar Pichai à CEO do Google, a subsidiária mais importante desta holding. 

Larry Page será o CEO desse conglomerado, Sergey Brin será o presidente, e Eric Schmidt se tornará o presidente-executivo da Alphabet. E neste alfabeto, apenas o G tem dono: e é de Google.

Horace Dediu, analista da indústria
Divulgação
Horace Dediu, analista da indústria

Em um artigo publicado em seu blog logo após o anúncio de Page , o analista da indústria de tecnologia Horace Dediu afirma que com a Alphabet, os fundadores Page e Brin ficam com o "crème de la crème do Google". Dentre as operações que se tornam independentes dentro da Alphabet, estão algumas das iniciativas mais empolgantes. 

As empresas que vão operar separadamente sob esse guarda-chuva incluem a Calico, que o Google criou em 2013 para para conduzir sua investigação na área da saúde; a Nest, empresa de equipamentos inteligentes para a casa que o Google adquiriu em 2014; o Fiber, que está construindo redes de banda larga de alta velocidade em diversas cidades; e Google X, o laboratório de pesquisa responsável pelo carro de auto-condução e que já havia desenvolvido o controverso óculos inteligentes do Google, o Glass.

Além disso, a Alphabet também irá supervisionar o Google Ventures e o Google Capital, duas entidades de investimento que se concentram em startups iniciais e em estágio de crescimento.

Para Dediu, a decisão dos fundadores do Google de criar esse conglomerado afasta ambos da operação e, principalmente, das decisões difíceis que nos últimos anos culminaram na existência, ainda que conceitual, de duas entidades contraditórias em uma só: o Google A e o Google B. 

IMAGENS: Relembre dez fatos marcantes nos 20 anos de história do Google:


Google A e Google B

O Google A era a organização de R&D (Pesquisa e Desenvolvimento, em português), enquanto o Google B era a organização responsável pelo SG&A (Vendas, geral e administração, em português). "Você pode encontrar despesas operacionais para a execução de cada uma no demonstrativo de resultados. No último trimestre, os gastos com R&D foram de cerca de US$ 2,8 bilhões, e de SG&A foram de cerca de US$ 3,5 bilhões", explica Dediu em um artigo publicado em seu site, cuja tradução pelo iG foi autorizada pelo autor.

De acordo com o especialista, é fácil de distinguir as duas entidades:

- O Google A era liderado por Eric Schmidt e Larry Page, enquanto o Google B era liderado por pessoas desconhecidas, mas principalmente representado pelo "diretor de negócios" Omid Kordestani.
- O Google A gasta o dinheiro. O Google B recolhe dinheiro.
- O Google B envia um cheque para Google A, enquanto o Google A envia dados para o Google B (que depois vende esses dados para os anunciantes e recolhe dinheiro).
- O Google A se comunica frequentemente com otimismo e entusiasmo sobre o futuro. O Google B permanece quieto.
- O Google A resolve problemas da humanidade, o Google B resolve problemas dos anunciantes.
- O Google A tem os usuários, o Google B tem clientes (para quem ele vende usuários.)

"Em resumo, o Google A é um altruísta, Google B é pragmático. O Google A se dedica à pesquisa, e o Google B se engaja no comércio. O Google A opera em uma estrutura semelhante a um Bell Labs, para o bem da humanidade [Bell Labs era originalmente o braço de pesquisa e de desenvolvimento AT&T dos Estados Unidos], enquanto o Google B opera em uma estrutura semelhante a AT&T e coleta rendas monopolistas, mas sem qualquer supervisão do governo", explica o analista.

Segundo Dediu, essa separação lhe ajudou a entender como o Google funciona e como toma decisões. E o nascimento da holding Alphabet não significa o fim dessa dicotomia Google A/Google B. Para ele, não há uma dissolução dessas duas faces do Google, pois não há uma mudança nesta estrutura central.

"O que temos em vez disso é uma divisão do Google A em Google A e Google A+. O Google A+ é o crème de la crème da parte altruísta do Google A. É aquilo que realmente não dá dinheiro. É o laboratório dos laboratórios. É o fábrica do impossível. É a incubadora onde passatempos são desenvolvidos. É o financiador de aventuras", explica o analista da Asymco.

Depois que o Google A+ foi esculpido, o Google A e o Google B permanecem exatamente como eram, agora sob o comando de um novo CEO, Sundar Pichai, agora mais do que nunca visto como sucessor dos fundadores do Google. Com isso, Page, que era o CEO anterior já não tem qualquer entrada no dia-a-dia, no funcionamento do Google A, e, sendo assim, não é prejudicado pela associação com o Google B.

"A Alphabet é, portanto, a holding do Google A +, do Google A e do Google B. Só posso supor que a separação do Google A+ a partir do Google A (e antes do Google em A e B) permite que os fundadores se distanciem ainda mais das decisões de compras que, através das estimativas de preço, determinam onde os valores estão e como os recursos devem ser alocados. Isso deve ser um grande alívio", escreveu Dediu.

Sundar Pichai era vice-presidente sênior. Agora, assume como CEO
AP Photo/Manu Fernandez
Sundar Pichai era vice-presidente sênior. Agora, assume como CEO

E o Google, como fica?

Para analistas consultados pela Association Press, esse movimento também pode ser um aceno para que Wall Street exija mais responsabilidade fiscal do Google, agora sob o comando de Sundar Pichai. As operações de Buscas, Mapas, YouTube, Android continuam sob responsabilidade do executivo indiano. 

"Como parte da reorganização, Page disse que a empresa vai começar a relatar os resultados financeiros por segmentos. Isso deve dar uma imagem mais clara de como os negócios de internet do Google estão se saindo, separados de outros empreendimentos", disse Colin Gillis, da empresa de investimentos BGC Partners. O Google teve mais de US$ 14 bilhões em lucro de um total de US$ 66 bilhões em vendas no ano passado, sendo que a parte mais lucrativa segue como a da publicidade na internet. 

Além disso, a nova estrutura poderia tornar mais fácil para o Google vender alguns de seus negócios não relacionados, ou comprar novos, disseram analistas. Page é um fã de Warren Buffett, o famoso investidor e CEO da Berkshire Hathaway. O conglomerado de Buffett é composto por mais de 80 empresas subsidiárias e permite que cada uma opere com uma independência substancial.

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