Governo mira 13 apps de "namorados de IA" por riscos a menores

Character.AI e Replika estão na lista; análise aponta falhas na verificação de idade, conteúdo sexualizado e coleta de dados

A presença de crianças na internet tem deixado muitos pais preocupados
Foto: Unsplash/McKaela Lee
A presença de crianças na internet tem deixado muitos pais preocupados

Treze aplicativos de "companheiros de IA" entraram na mira do governo brasileiro por possíveis riscos a crianças e adolescentes. A análise do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) cita plataformas como Character.AI e Replika e aponta problemas relacionados à verificação de idade, conteúdo sexualizado, uso compulsivo e coleta de informações pessoais.

O levantamento foi conduzido pela Secretaria Nacional de Direitos Digitais (Sedigi), que avaliou serviços disponíveis no mercado brasileiro . O material foi encaminhado à Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) e à Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) para análise.

A lista reúne Character.AI, Replika, Nomi, Candy.ai, Kindroid, Chai, Paradot, Talkie, CrushOn.AI, Eva AI, Swipey, Anima e SpicyChat.AI .

Esses serviços são conhecidos como "AI Companions" . Eles usam chatbots capazes de manter conversas contínuas, lembrar informações compartilhadas pelo usuário e adaptar as respostas conforme o histórico das interações.

Em alguns casos, os sistemas simulam amizades, relacionamentos amorosos ou vínculos afetivos. É justamente essa característica que aparece entre os pontos de atenção levantados pelo governo.

Verificação de idade preocupa

Um dos principais problemas identificados está na forma como as plataformas verificam a idade dos usuários.

Segundo a análise, dez dos sistemas avaliados permitem a confirmação da idade por meio de autodeclaração, como informar a data de nascimento ou confirmar que o usuário é maior de idade.

Testes citados no levantamento indicam que esse mecanismo pode ser contornado. Em uma avaliação com 21 aplicativos, nenhum teria impedido a falsificação da data de nascimento. Em outro teste, 20 plataformas continuaram a conversa depois que o usuário informou ter 12 anos.

A questão ganhou importância com o ECA Digital, que estabelece novas regras para a proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital. A legislação prevê mecanismos de aferição de idade para serviços acessados por esse público.

Conteúdo sexualizado e dados pessoais

A nota técnica também aponta riscos relacionados à exposição de menores a conteúdo sexualizado ou inadequado para a idade.

Outro ponto envolve os dados obtidos durante as conversas. Como os companheiros de IA incentivam interações pessoais e prolongadas, os usuários podem compartilhar informações sobre sentimentos, relacionamentos e outros aspectos íntimos da vida.

O documento cita ainda a criação de perfis comportamentais e emocionais. Segundo a análise, essas informações poderiam ser utilizadas para personalizar ofertas, publicidade ou recursos pagos.

Apego à IA também entra na análise

A capacidade de criar uma sensação de vínculo afetivo é outro ponto investigado pela Sedigi .

A nota menciona riscos de apego intenso, uso compulsivo e substituição de relações humanas por interações com os chatbots. Entre os possíveis impactos associados estão privação de sono, queda no desempenho escolar, abandono de atividades e afastamento das relações presenciais.

O mercado de companheiros de IA também cresceu rapidamente. Dados citados pelo Ministério da Justiça indicam que o número de plataformas passou de 16, em 2022, para mais de 128 em julho de 2025. Somente no primeiro semestre daquele ano, os serviços registraram 60 milhões de downloads .

Os aplicativos serão bloqueados?

Por enquanto, não há determinação de bloqueio das 13 plataformas. A análise do Ministério da Justiça tem caráter preliminar e foi encaminhada à ANPD e à Senacon para avaliação de possíveis irregularidades.


A ANPD é responsável por fiscalizar o cumprimento das regras relacionadas à proteção de dados e ao ECA Digital, enquanto a Senacon pode analisar questões relacionadas à proteção do consumidor.

A identificação de possíveis riscos também não significa que as empresas tenham sido consideradas culpadas de violar a legislação. As plataformas terão direito ao contraditório e à ampla defesa.

Caso sejam identificadas irregularidades, os órgãos responsáveis poderão avaliar medidas e eventuais sanções de acordo com a legislação brasileira.