
Quem nunca comentou sobre um produto e, minutos depois, viu um anúncio dele na tela? A suspeita de que o celular te ouve é comum, mas o maior risco à privacidade hoje está em outro lugar. Para o advogado Lucas Paglia, especialista em direito digital, cibersegurança, proteção de dados e compliance regulatório, ouvido pelo iG, a ameaça está naquilo que as pessoas contam por vontade própria a assistentes de inteligência artificial como ChatGPT, Gemini e Meta AI .
Dúvidas de saúde, aperto financeiro, brigas em família e planos de compra viraram assunto frequente nas conversas com os chatbots, programas que respondem por texto ou voz como se fossem uma pessoa. Muitas vezes, com detalhes que ninguém publicaria em uma rede social.
Celular te ouve? O que dizem as evidências
Segundo Paglia, a preocupação é legítima, mas não há provas de que os aparelhos gravem conversas de forma generalizada para vender anúncios.
Para o especialista, o problema real é a coleta excessiva de dados e a falta de transparência sobre como eles são usados e compartilhados. "Hoje, as empresas não precisam necessariamente ouvir nossas conversas para conhecer nossos interesses. O cruzamento de dados já permite construir perfis extremamente detalhados sobre quem somos, o que consumimos e até o que provavelmente faremos no futuro", afirma.
Por que a IA sabe mais que suas curtidas
Nas redes sociais, as empresas deduzem interesses a partir de curtidas, buscas e cliques. Com os chatbots, a lógica muda: o próprio usuário conta suas preocupações financeiras, problemas de saúde, dificuldades no trabalho, conflitos familiares e questões emocionais.
"A inteligência artificial pode receber não apenas informações sobre o que fazemos, mas também explicações sobre o que pensamos, sentimos e pretendemos fazer", diz Paglia, que é membro da Associação Brasileira de Inteligência Artificial .

O tom de conversa ajuda a baixar a guarda. Muita gente trata a IA como um espaço confidencial, sem perceber que fala com uma plataforma de tecnologia. "O grande risco é confundir a sensação de privacidade de uma conversa com a garantia efetiva de confidencialidade dos dados compartilhados", alerta.
Para onde vão as suas conversas
O destino das informações varia de acordo com a plataforma, as regras de privacidade e as configurações escolhidas pelo usuário. Em geral, as mensagens são processadas para gerar respostas, ficam guardadas por um tempo e, em alguns casos, ajudam a treinar a IA, ou seja, servem de exemplo para o sistema aprender e melhorar.
Algumas empresas também admitem que funcionários autorizados revisem parte das conversas, sobretudo por motivos de segurança. Já na publicidade, o especialista lembra que usar dados para personalizar anúncios é diferente de repassar as conversas a anunciantes. Além disso, as práticas mudam de um serviço para outro.
O que diz a lei brasileira
No Brasil, qualquer uso de dados pessoais precisa seguir a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) . A lei exige que as empresas respeitem princípios como finalidade, necessidade, transparência e segurança, além de ter uma justificativa legal para tratar as informações.
Ainda assim, Paglia faz um alerta: uma conversa com a IA não tem o mesmo sigilo de uma consulta com médico, advogado ou psicólogo. Por isso, vale conhecer as regras da plataforma antes de contar algo pessoal.
O que nunca contar à IA
A regra de ouro, segundo o especialista, que é professor da PUC-Campinas e do Sebrae Nacional, é simples: se a informação não é necessária para obter a resposta, não deve ser compartilhada. Ele recomenda evitar:
* senhas e códigos de autenticação;
* dados bancários completos;
* documentos de identificação, como RG e CPF;
* dados médicos que permitam identificar o paciente;
* informações íntimas;
* documentos de trabalho protegidos por sigilo.
O cuidado vale também para dados de outras pessoas. Um profissional que pede à IA para analisar contratos ou processos de clientes pode expor informações protegidas sem perceber.
Sempre que possível, o ideal é apagar nomes e números de documentos antes de colar o texto no chatbot . No trabalho, o especialista recomenda dar preferência a ferramentas corporativas, que oferecem garantias adequadas de segurança e confidencialidade.
Como usar a IA com mais segurança
Paglia não recomenda abandonar a tecnologia, mas sim ajustar as configurações. Muitas plataformas permitem desligar o uso das conversas para treinamento, controlar a memória e a personalização da IA, usar conversas temporárias e apagar o histórico.
No ChatGPT, por exemplo, basta entrar nas configurações, abrir a área de controles de dados e desativar a opção que usa as novas conversas para melhorar o modelo. Gemini, Claude e outros assistentes têm controles parecidos, mas com regras próprias.
Outras medidas ajudam:
* revisar as permissões de microfone, câmera, localização e arquivos do celular;
* ativar a verificação em duas etapas, que pede um código extra além da senha;
* evitar conectar e-mails, contas de trabalho e serviços de armazenamento à IA sem necessidade.
Por fim, um aviso importante. "Apagar o histórico de uma conversa não significa, necessariamente, que todos os dados tenham sido imediatamente eliminados dos sistemas da empresa", afirma o especialista.