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Aparelho da Samsung tenta renovar categoria dos relógios inteligentes, mas interface confusa e recursos demais prejudicam o desempenho

NYT

Por David Pogue

Em seus primeiros anos, os computadores tinham o tamanho de prédios. Para usar um, você tinha que entrar nele.

Ao longo das décadas eles encolheram. Primeiro, foram parar nas mesas, depois em mochilas, e agora no bolso.

Agora, estamos entrando em uma era em que os computadores são tão pequenos que os usamos como se fossem joias.

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Mas o tipo de joia ainda não foi definido. Vamos usar computadores na cabeça, como o Google Glass? Ou vamos usá-los nos pulsos, como o Galaxy Gear  (R$ 1,3 mil), relógio inteligente da linha Samsung Galaxy ?

A Samsung não é a primeira empresa a por um computador nos pulsos das pessoas. Outras empresas já vêm fazendo isso, ainda que de forma primária. Entre os exemplos de relógios inteligentes estão o Pebble, o Cookoo, o Metawatch, o Martian. Mas o mundo espera que empresas como Apple ou Samsung façam um trabalho melhor ao incluir muitos componentes eletrônicos em um espaço minúsculo.

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O iWatch da Apple é só um rumor. Mas o Galaxy Gear é real e já está no mercado. Ele é ambicioso e às vezes realmente impressionante. Mas não deve chegar aos pulsos do público em geral nem tão cedo.

A primeira razão, ele é na verdade só metade de de um computador. O relógio requer um celular ou tablet compatíveld a Samsung para funcionar. Sem um aparelho complementar, o relógio não serve para quase nada. E, no momento, apenas dois produtos são compatíveis: o Galaxy Note III e o novo modelo do tablet Galaxy Note 10.1.

Em breve a Samsung diz que o Galaxy S4 receberá uma atualização para também funcionar com o relógio. Em seguida virão o Note II e o S III. Mas o Gear nunca funcionará com smartphones de outras empresas. A Samsung está tentando aplicar uma estratégia de aparelhos que funcionam melhor (ou até exclusivamente) entre si, tática similar à da Apple.

Design

O relógio é gigante, mas o design é caprichado e esconde um pouco o tamanho exagerado. O relógio pode ser comprado com pulseiras de várias cores. Mas não dá para trocar a pulseira, já que componentes eletrônicos estão embutidos nela. Entre eles estão um pequeno microfone e uma câmera.

O Gear se acomoda bem no pulso. Não é à prova d´água, mas a Samsung afirma que ele resiste bem a respingos. Para carregar a bateria é necessário conectar o relógio a um carregador com porta USB. Todo dia.

Funções

Então, o que o Gear faz? Um monte de coisas meio aleatórias. Algumas funcionam bem, outras não. Por exemplo?

Informar as horas: no seu tablet/celular compatível, você instala um aplicativo chamado Gear Manager. É por meio dele que você ajusta as configurações do relógio, incluindo as variações de tela para informar as horas de modo analógico ou digital. O único botão do relógio, na lateral, sempre abre a tela Home.

Tirar fotos e gravar vídeos: a qualidade não lá uma National Geographic. As fotos têm 1,9 megapixel e o relógio pode guardar apenas 50 delas. Vídeos são pequenos e curtos (15 segundos).

Não dá para gravar mais de três de uma vez e o relógio guarda apenas 15 clipes. Mas não vamos pegar no pé do aparelho, é só um relógio. Mas se você já se incomodava ao saber que o Google Glass permite que um amigo grave suas conversas sem você perceber, ainda não viu nada.

Encontrar seu celular/tablet: se você deixou seu aparelho portátil em algum lugar, o relógio pode fazer com que o gadget emita um som até ser encontrado. E vice-versa. Isso funciona desde que os aparelhos estejam separados por, no máximo, 7,5 metros. Esse é o alcance da rede Bluetooth que conecta os aparelhos.

Destravar seu tablet/smartphone: se você está usando o relógio, não precisa digitar uma senha para destravar seu celular ou tablet. Recurso esperto e realmente útil.

Alertas de mensagens: o relógio informa quem está ligando e mostra mensagens SMS na tela de 1,6 polegada e resolução de 320 x 320. Mas o estranho é que o relógio avisa que o e-mail chegou, mas não consegue mostrar o texto (em vez disso, ele apenas faz com que a mensagem seja aberta no smartphone)

Fazer e receber ligações: acredite, dá para fazer ligações telefônicas usando só o relógio. O recurso realmente funciona e assim você pode deixar suas mãos livres.

A qualidade do som é muito boa, considerando que é apenas um relógio. Mas o volume é baixo. Se houver muito som ambiente você terá que aproximar o pulso da cabeça. Você acha que aqueles caras que têm fones Bluetooth e falam sozinhos na rua são bizarros? Se o Gear se popularizar, vai ter muita gente falando para as mangas da camisa, como agentes secretos.

Controlar músicas: o relógio permite navegar entre as músicas tocadas pelo celular.

Rodar aplicativos: não há muitos, mas há muito potencial. O aplicativo Vivino permite obter informações sobre um vinho fotografando seu rótulo. O Evernote tira fotos e grava recados de áudio que são sincronizados com computadores e celulares.

RunKeeper e MyFitnessPal gerenciam sua atividade física. Há ainda um leitor de feeds do Twitter que não funciona e um aplicativo tosco do Facebook que mostra textos de atualizações, mas não as fotos (somente no celular).

Vamos admitir: é uma lista de recursos impressionantes para um relógio. Se você voltasse aos anos 1980 com um Gear, seria venerado como um deus.

Interface

Mas jogar um monte de troncos de madeira num buraco não ergue uma cabana. E a Samsung cedo ou tarde aprenderá que não dá para criar um aparelho realmente atraente apenas jogando todos os recursos possíveis nele.

Em termos de interface, o Gear é um completo desastre. Design de software, tradução, usabilidade, consistência de visual e gestos, tudo é ruim.

Interface confusa é um dos problemas do Gear
Reuters
Interface confusa é um dos problemas do Gear

A relação entre o relógio e o celular/tablet pareado com ele nunca é a mesma. Parece que cada recurso exige um manual de instruções para funcionar.

A navegação do relógio funciona assim:

Gesto lateral a partir da Home para ver as 13 telas do relógio: registro de ligações, contatos, câmera, relógio, discador, notificações, comandos de voz (S Voice), recados de voz, galeria de fotos, controlador de mídia, pedômetro, configurações e aplicativos.

Por que há uma tela separada para aplicativos? Pedômetro, galeria e relógio não são aplicativos?

Mais: você desliza o dedo para baixo para abrir a câmera, mas somente se estiver na tela Home. O mesmo gesto equivale a um Voltar se você não estiver na Home. Segure dois dedos por alguns segundos para ver lista de aplicativos recentes. Dois toques rápidos ativam o zoom. Dois toques rápidos com dois dedos ajustam o brilho da tela. Toque quatro vezes com seis dedos no ritmo da Quinta Sinfonia de Beethoven para chamar um psicólogo.

Conclusão

Ninguém vai comprar esse relógio, e ninguém deve comprá-lo. Mas há algo aqui debaixo da pilha de recursos. Em alguns momentos o Gear pode ser realmente útil, principalmente quando permite que você faça algo que não poderia fazer com um celular na mão. Precisamos apenas que alguém atinja o balanço ideal entre as funções do relógio e do celular. Alguém que realmente defina com precisão o que o relógio deve ou não fazer.

Assim que alguém achar essa fórmula, a era dos relógios inteligentes realmente úteis chegará. Eles serão o máximo até que chegue a era dos computadores na forma de brincos.

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