Recursos escondidos, falta do botão Iniciar e nova interface com aplicativos organizados em blocos dinâmicos estão entre fatores que atrapalham velhos usuários do sistema

AP

Nova York - O Windows 8 chega nesta semana e os consumidores estão em choque. O sistema, usado de uma forma ou de outra por uma geração, ganhou um visual completamente novo que forçará os usuários a aprender novas formas de executar tarefas usando um PC.

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A Microsoft, desenvolvedora do Windows, está causando uma ruptura com o passado para continuar relevante em um mundo onde smartphones e tablets acabaram com a dominância de três décadas dos PCs. O Windows 8 foi criado para conectar o sistema do PC, tablet e celular com apenas um design. Contudo, levando em conta as reações de algumas pessoas que testaram a nova versão, a Microsoft está arriscando confundir os consumidores.

Tony Toos, um missionário americano que vive em Paris (França), instalou uma versão de testes do Windows 8 em seu notebook para ver se o novo sistema operacional da Microsoft tornaria a máquina mais rápida, apesar de antiga. Isso não aconteceu, diz ele, e ele percebeu logo que trabalhar com o novo software requer que ele descarte muito do que já sabia sobre o Windows.

"Foi muito difícil me acostumar", disse ele. "Eu tenho dois filhos, com idades de 8 e 10 anos, e eles nunca se acostumaram. Eles diziam 'Só vamos usar o computador da mamãe'."

O Windows 8 é a maior revisão do sistema operacional da Microsoft desde que ela introduziu o Windows 95, em meio à uma grande comoção, há 17 anos atrás. O sistema cresceu e se tornou um negócio de US$ 14 bilhões por ano para a Microsoft, o que ajudou Bill Gates, cofundador e ex-CEO da empresa, a se tornar um dos homem mais ricos do mundo.

Agora, com a chegada dos smartphones e tablets, a indústria de computação pessoal está em crise. As fabricantes de computadores estão desesperadas por alguma coisa que as ajudem a fazer as vendas subirem novamente. As vendas de PCs devem encolher neste ano pela primeira vez desde 2001, segundo a consultoria IHS iSuppli.

A questão é se a nova versão, que também rodará em tablets, além dos PCs tradicionais, poderá satisfazer as necessidades dos dois tipos de usuários. "Estou muito preocupado de que a Microsoft possa estar perto de atirar em seu próprio pé de maneira espetacular", diz Michael Mace, CEO da Cera technology, uma startup do Vale do Silício (EUA), e funcionário da Apple. "O Windows 8 é tão diferente que muitos usuários do Windows que não são 'tecnófilos' se sentirão perdidos."

A Microsoft lançará oficialmente o Windows 8 em 26 de outubro, próxima sexta-feira, e não planeja amortecer o impacto. As fabricantes de computadores tornarão o Windows 8 um padrão em praticamente todos os novos computadores vendidos aos consumidores.

Em reunião com analistas de Wall Street na última quinta-feira (18), Peter Klein, CFO da Microsoft, afirmou que não está preocupado de que os usuários fiquem confusos e isso possa atrasar a adoção do Windows 8. Quando a Microsoft apresenta novos recursos, disse ele, as pessoas percebem que "essas inovações trazem mais valor, mais produtividade e melhor usabilidade para o sistema". "Não será diferente com o Windows 8", disse Klein.

Dupla identidade

Em vez do familiar Menu iniciar e os ícones da área de trabalho, o novo Windows mostra os aplicativos em uma interface composta por blocos coloridos, que podem mostrar notificações recebidas por meio desses aplicativos. No caso do bloco de fotos, por exemplo, ele mostra as fotos da coleção do usuário. Já o bloco de pessoas, mostra os contatos do usuário nas redes sociais.

Nova interface do Windows conviverá em paralelo com o desktop comum, mas será ponto de partida para todas as atividades no PC
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Nova interface do Windows conviverá em paralelo com o desktop comum, mas será ponto de partida para todas as atividades no PC

Os blocos são grandes e fáceis de interagir com a ponta dos dedos - o que é conveniente para computadores e tablets com telas sensíveis ao toque. As aplicativos preenchem toda a tela por padrão - o que é conveniente para uma tela de tablet, que é geralmente menor que a de um PC. Os botões do Windows 7, para ajudar o volume, por exemplo, estão escondidos. O usuário terá que aprender como fazê-los aparecer, quando ele precisar deles.

"Em nome da simplicidade, eles sacrificaram a obviedade", diz Sebastian de With, um designer de interface e diretor de criação da DoubleTwist, uma empresa de desenvolvimento de aplicativos de San Francisco (EUA). 

"Existem muitas coisas que estão escondidas", diz Raluca Budiu, uma especialista em experiência de usuário do Nielsen Norman Group. "Uma vez que os usuários os descobrem, eles têm que se lembrar de onde eles estão. As pessoas terão que trabalhar duro para usar esse sistema no dia a dia."

Todas a versões do Windows desde a versão 2.0, lançada em 1987, foram construídas uma sobre a anterior. Os usuários não precisaram abandonar o jeito antigo de fazer as coisas conforme as atualizações do Windows foram lançadas. O Windows 8 rompe com a tradição de continuidade da Microsoft.

A interface desktop do Windows continuará disponível por meio de um bloco da página Início e a maioria dos programas serão iniciados neste ambiente. Mas, uma vez que o botão Início foi extinto, os usuários terão que alternar entre as duas interfaces do sistema.

Outro fator de confusão em potencial é a existência de duas versões do Windows 8, uma delas chamada Windows RT que não permite usar aplicativos comuns do Windows. Essa versão foi desenvolvida apenas para computadores e tablets com chips baseados na arquitetura ARM.

Para Budiu, da Nielsen, a transição para Windows 8 será mais difícil para usuários de PC, porque as escolhas de design feitas pela equipe da Microsoft favorecem quem usa uma tela sensível ao toque, em vez de mouse e teclado. Alex Wukovich, um londrino que testou o Windows 8 no notebook de um amigo, concorda. "Em um desktop, o sistema parece estranho. Parece que é um sistema operacional para tablets que a Microsoft adaptou para um desktop."

Lado positivo

Nem todo mundo que testou o Windows 8 concorda com as críticas. Sheldon Skaggs, um desenvolvedor web da Carolina do Norte (EUA), pensou que odiaria o Windows 8, mas precisava de algo para tornar seu antigo notebook mais rápido. Então, ele instalou a versão de testes do sistema.

"Depois de uma curva de aprendizado curta e brincando um pouco mais com o sistema, você se acostuma com ele, surpreendentemente", diz Sheldon. O computador agora inicia o sistema de forma mais rápida que o Windows Vista.

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O Windows Vista foi o mais recente fracasso entre as versões do sistema. Quando ele foi lançado em 2007, os usuários o acharam tão desajeitado e cheio de falhas que esperaram pela próxima atualização, o Windows 7, que chegou apenas dois anos e meio depois. Entre as empresas, muitas esperaram mais do que os consumidores para atualizar o software. Muitas delas ainda usam o Windows XP, lançado em 2001.

Colin Gillis, um analista da BGC Financial, está otimista em relação ao Windows 8, mas diz que o sistema é "mal-humorado", apesar de rodar bem em PCs com capacidade de processamento limitada, o que o torna ideal para máquinas compactas e tablets. Para ele, no entanto, a cada lançamento de versão do Windows, o mercado tem se decepcionado.

A Intel fabrica os processadores que equipam mais de 80% dos computadores e tem grande interesse no sucesso do Windows. Paul Otellini, CEO da Intel, afirmou na última semana que, quando a empresa deixou que usuários experimentassem o Windows 8 nos caros ultrabooks com telas sensíveis ao toque, "o retorno foi universalmente positivo". Contudo, ele não garantiu aos analistas se os consumidores domésticos abraçarão o Windows 8.

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