Depois de seguidas derrotas na Justiça, Tyler e Cameron Winklevoss deixam de lado processos contra Mark Zuckerberg e criam fundo de investimento em empresas de internet

NYT

Ao se sentar com Tyler e Cameron Winklevoss, é difícil saber exatamente com quem você está falando. Altos, de olhos azuis e de ombros tão largos quanto uma geladeira, os gêmeos são idênticos até no pedido: dois rolinhos de lagosta com batatas fritas. Cada um pede um espresso; nenhum dos dois come o biscoitinho que acompanha. E embora o restaurante esteja repleto de conversas nesta noite de fevereiro, os gêmeos estão completamente focados em transmitir sua mensagem.

Tyler e Cameron Winklevoss
NYT
Tyler e Cameron Winklevoss

"Nosso negócio não é sermos famosos: não é isso que fazemos ou que buscamos", afirmou Tyler, que, olhando de perto, possui o queixo levemente mais amplo e é um pouco mais assertivo. "Mas não somos tímidos, nem temos fobia disso", acrescentou ele. "Somos amigáveis quando as pessoas são amigáveis conosco."

Cameron concorda. "Sempre que as pessoas se aproximam de nós, elas são incrivelmente positivas e quase efusivas demais, no sentido de 'eu apoio vocês totalmente', quase até o ponto em que eu diria: 'Ei, ei, calma aí'", disse ele. "As pessoas ficam mais emotivas em relação a isso do que nós mesmos jamais ficamos."

"Isso", naturalmente, é a sinuosa história do Facebook, uma pequena startup fundada em Harvard, em 2002, que prosseguiu para se tornar uma empresa multibilionária nas mãos de um fundador, Mark Zuckerberg.

Como já sabem todos os que viram o filme "A Rede Social", de 2010, esse triunfo comercial ocorreu sem os gêmeos Winklevoss, gerando suas furiosas acusações de que Zuckerberg teria se apropriado de sua ideia para o site.

Seus personagens foram indelevelmente retratados como mauricinhos privilegiados: genética e financeiramente abençoados, eles invadiram o escritório do presidente de Harvard, exigindo uma punição a Zuckerberg (embora Zuckerberg, verdade seja dita, tenha parecido ainda mais desagradável no filme). A imagem final dos irmãos foi de que eles perderam não só uma grande corrida de remos na Inglaterra, mas também o controle da empresa, deixando-os bravos ("Vamos estripar o maldito nerd", diz o personagem de Cameron). No fim, apenas uma nota lateral na história do Facebook.

Para a maioria das pessoas, sua história terminou com aquela cena, e os Winklevii, como foram apelidados, acabaram praticamente esquecidos. Nos anos seguintes, os dois foram competir nos Jogos Olímpicos de 2008, ficando em sexto lugar em Pequim, e entraram numa longa batalha jurídica com Zuckerberg e outros. Após receberem pelo menos US$ 65 milhões em 2008, eles voltaram aos tribunais para pedir mais – mas acabaram abandonando as tentativas.

"Fizemos o nosso melhor", afirmou Tyler, hoje com 31 anos. "E quando sentimos que estávamos no fim da linha, foi o fim e partimos para outra." Mas se a vingança é um prato melhor servido frio, então os Winklevii estão num banquete. Os gêmeos estão mais ativos do que nunca: financiando startups, organizando eventos beneficentes políticos e até mesmo brincando com sua própria imagem num comercial de televisão.

No ano passado, sua empresa Winklevoss Capital começou a trabalhar como o que chamaram de "anjos aceleradores" – para o site de compras Hukkster e uma empresa de dados financeiros, chamada SumZero. Divya Narendra, fundador da SumZero, conheceu os gêmeos em Harvard, e acabou sendo correquerente no processo contra o Facebook.

Narendra, que também foi retratado no filme – "Fui interpretado por um ator que não se parecia nada comigo" –, disse que os gêmeos se adaptaram à sua celebridade de forma tipicamente discreta. "Acho que parte deles gosta da fama, e tenho certeza de que parte deles fica irritada algumas vezes", explicou ele. "É duro me colocar no lugar deles, pois eu não atraio esse tipo de atenção. Ninguém me reconheceria na rua. Mas as pessoas os abordam."

De fato, eles foram vistos recentemente em casas noturnas do SoHo, comparecendo a desfiles da Fashion Week e sendo seguidos no metrô por paparazzi britânicos. Em dezembro, os gêmeos, que moram em Los Angeles e Nova York, organizaram um evento de arrecadação de fundos em seu apartamento de 743 metros quadrados em Hollywood Hills, para o candidato democrata a prefeito, Eric Garcetti. Em Nova York eles apoiaram Daniel L. Squadron, senador estadual de Nova York que representa um pedaço do Brooklyn e Lower Manhattan.

Eles elogiaram o Hukkster no programa "Today", no outono passado, e logo após abandonarem sua disputa legal, em junho de 2011, apareceram numa propaganda – que eles dizem ter ajudado a escrever – para a Wonderful Pistachios. O anúncio aplicava um golpe pouco sutil em Zuckerberg, com um irmão sugerindo que vender nozes sem casca era uma "boa ideia", e o outro advertindo que alguém poderia roubá-la.

Tyler e Cameron Winklevoss em seu escritório em Manhattan
NYT
Tyler e Cameron Winklevoss em seu escritório em Manhattan


"Quem faria isso?" brincaram os Winklevii, antes do locutor anunciar: "Os gêmeos Winklevoss fazem com cuidado".

Tudo parece sugerir que os gêmeos estão em paz com o fato de que, embora não tenham pedido por notoriedade, hoje eles são mais conhecidos como os caras que perderam um salário estilo Sultão de Dubai. E ser conhecido, eles dizem, não é necessariamente ruim quando seu objetivo é criar startups.

"Não acho que estamos pulando na frente das câmeras apenas para pularmos em frente às câmeras", argumentou Tyler sobre a aparição no programa "Today". "Estávamos falando sobre o que pode ser feito pelo Hukkster."

Cameron interrompe. "Acho que nossa prova de fogo é: existe um motivo para isso?" explicou ele. "Estamos ajudando a construir o Hukkster? Estamos ajudando a formar a SumZero?"

Em janeiro, os gêmeos abriram seu próprio escritório familiar, um arejado loft de 465 metros quadrados no bairro de Flatiron, em Nova York, antigo lar do Silicon Alley (Beco do Silício). O espaço é algo como um experimento social, misturando charme feminino (da equipe do Hukkster) e um toque nerd masculino (da equipe da SumZero). Há um espaço de convivência futurístico equipado com bancos de bar em formato de batatinhas e uma televisão de 75 polegadas (cuja largura é quase igual à altura dos gêmeos), e uma pequena sala para programadores sobrecarregados poderem tirar uma soneca.

É uma ideia levemente "old school" – colocar todos na mesma sala – que Tyler descreve em termos idealistas.

"Reconhecemos que em Nova York existe uma dificuldade em reduzir o abismo entre trabalhar no Starbucks e realmente ter dinheiro para fazer seu próprio espaço", disse ele, acrescentando que "queremos ser construtores de empresas. Não queremos apenas assinar cheques e dizer 'Te vejo por aí'".

Na frente, há um cubículo branco reservado para uma cabine de DJ. Tudo isso, segundo os gêmeos, é parte do espírito de transformar seu negócio num prazer. "Queremos que isto seja um local onde as pessoas queiram vir trabalhar", afirmou Tyler.

Mesmo rejeitando algumas armadilhas do Vale do Silício, os Winklevii não são imunes ao tipo de exagero que costuma esquentar o ambiente de empresas ponto-com. Falando da SumZero, Tyler declarou: "Ela extingue completamente a maneira como as coisas vêm sendo feitas em Wall Street".

O que pode soar um pouco arrogante, claro, a menos que você acredite – como os Winklevii obviamente acreditam – que eles foram cruciais na elaboração da ideia para o Facebook. Eles não oferecem muitas opiniões sobre Zuckerberg, mas falam sobre como sua batalha foi retratada.

"Sempre foi como Davi e Golias, atletas de sangue azul contra o garoto hacker, quando foi na realidade uma disputa entre partes privilegiadas", explicou Cameron. "As semelhanças entre nós e Zuckerberg são na verdade maiores do que as diferenças."

"A ironia", disse ele, "é muito forte".

    Leia tudo sobre: facebook
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.