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CEO do Facebook teve que responder às perguntas feitas, dessa vez, pelos deputados integrantes do Comitê de Energia e Comércio da Câmara

Pelo segundo dia consecutivo, Zuckerberg presta depoimento aos congressistas americanos. Dessa vez, na Câmara dos deputados
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Pelo segundo dia consecutivo, Zuckerberg presta depoimento aos congressistas americanos. Dessa vez, na Câmara dos deputados

Mark Zuckerberg foi ao Capitólio pelo segundo dia consecutivo para prestar depoimento sobre o funcionamento do Facebook. Recentemente envolvida no vazamento de dados de 87 milhões de usuários, o CEO teve que responder às perguntas dos deputados americanos integrantes do Comitê de Energia e Comércio da Câmara americana sobre a política de segurança da empresa.

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O interrogatório durou cerca de cinco horas e repetiu diversas questões feitas no depoimento que Zuckerberg prestou ontem no Senado americano . Cada um dos 55 membros do Comitê teve quatro minutos para interpelar Zuckerberg e eles abordaram tópicos como privacidade na rede, necessidade de regulação do Facebook, venda de dados pessoais, combate a discursos de ódio e propagação de fake news na rede social.

O clima, porém, foi bem mais ameno do que na véspera. O próprio Zuckerberg parecia estar mais confortável com a situação do que ontem. A grande novidade do depoimento de hoje foi a admissão do CEO de que ele também foi uma das pessoas afetadas pelo vazamento de dados para a Cambridge Analytica.

Provavelmente, Zuckerberg não foi uma das 300 mil pessoas que fizeram o teste psicológico “This is Your Digital Life” responsável por conseguir a autorização dos usuários para acessar seus dados pessoas. Mas ele provavelmente era amigo de pelo uma pessoa que o fez e também teve suas informações violadas.

Em linhas gerais, Zuckerberg pediu desculpas novamente por não ter sido capaz de proteger os dados e honrar a confiança de seus usuários no passado, afirmou estar disposto a contribuir com as autoridades para fazer uma regulação do mercado, explicou diversas mudanças na política de privacidade e segurança que a empresa fez após o vazamento e colocou-se à disposição para responder mais perguntas, por escrito, dos deputados.

Veja abaixo as falas de mais destaque de Zuckerberg durante o depoimento de hoje (10):

Uso de dados

Reiteradas vezes, Zuckerberg precisou e quis explicar que sua empresa não vende os dados de ninguém. Os deputados insistiram porque o modelo de negócios do Facebook é sustentado pela venda de anúncios de publicidade segmentados de acordo com as prioridades e gostos pessoais dos usuários. Zuckerberg explicou, porém, que os anunciantes nunca chegam a ter acesso aos dados, esses são utilizados apenas pelo próprio Facebook para distribuir as propagandas.

Outro ponto sensível em relação a essa manipulação dos dados diz respeito aos aplicativos instalados na plataforma. Cada um deles requer determinados acessos para poder operar. Foi justamente assim que o pesquisador russo Aleksandr Kogan pediu e conseguiu os dados das pessoas. Os deputados perguntaram mais de uma vez se Zuckerberg acreditava que os termos de compartilhamento desses dados estavam claros para os usuários.

O CEO explicou que tem "pessoas trabalhando continuamente para simplificar os termos e facilitar o entendimento" e ressaltou que numa das mudanças já feitas, os aplicativos não vão mais conseguir acessar os dados de amigos das pessoas que deliberadamente quiseram fazer isso. Essa foi uma fala importante justamente porque foi assim que a Cambridge Analytica conseguiu aumentar o alcance de suas informações de 300 mil para 87 milhões de usuários. Incluindo, como dito acima, o próprio Zuckerberg.

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Regulação

Assim como no depoimento de ontem, Zuckerberg mudou o tom do discurso e até do lobby que a companhia sempre fez no congresso americano para evitar uma regulação das atividades de sua empresa. A grande discussão se dá por conta do enquadramento ou não do Facebook como uma empresa de mídia. Isso porque, se colocado nessa categoria, o Facebook se tornaria responsável por todo o material publicado dentro da plataforma e seus respectivos impactos.

Na prática, isso provocaria um dano irremediável ao Facebook que teria que impor controles muito maiores ao que as pessoas podem publicar e mesmo assim contratar mais dezenas de milhares de funcionários para conseguir controlar o que seus mais de 2 bilhões de usuários fazem dentro da rede. Outra alternativa seria treinar uma inteligência artificial capaz de avaliar com precisão isso, o que Zuckerberg afirmou já estar tentando fazer, mas classificou como "o nosso maior desafio". 

Ele também sempre fazia questão de deixar claro que vê o Facebook como uma empresa de tecnologia. Nesse sentido, ele afirmou estar disposto a trabalhar para ajudar as autoridades a desenvolver uma regulação desse setor. Porém, Zuckerberg alertou para a complexidade da questão, ontem e hoje, para fazer com que fosse justa para os usuários e viável para as empresas. O CEO chegou a citar nominalmente a concorrência com empresas de tecnologia chinesas que não passariam pela mesma regulação.

Esse é um ponto bastante caro aos políticos americanos que, ao mesmo tempo que querem defender o direito à privacidade de seus cidadãos, não querem perder a corrida tecnológica para os chineses. Recentemente, o próprio presidente Donald Trump vetou a aquisição de uma empresa de tecnologia americana por uma empresa chinesa que supostamente receberia dinheiro do governo chinês para ter acesso ao conhecimento americano.

Sempre que Zuckerberg foi perguntado sobre questões mais específicas sobre a regulação, porém, o CEO respondeu de maneira evasiva. Um dos deputados chegou a perguntá-lo sobre a regulamentação (bem mais rígida) que a União Europeia faz das empresas de tecnologia, pedindo para que Zuckerberg citasse os pontos positivos e depois negativos. Ele afirmou que "é uma questão complexa que deveria ser analisada com mais cuidado. Eu preciso pensar sobre isso."

Censura e terrorismo

Outros dois pontos bastante estressados pelos deputados foram o da censura, sobretudo a páginas conservadoras, e a ações antiterrorismo adotadas pelo Facebook para evitar, por exemplo, a disseminação de mensagens violentas. Um dos deputados disse que um de seus filho viu um vídeo onde um homem era decaptado pelo Estado Islâmico que circulava pela rede.

Sobre o primeiro tópico, Zuckerberg reafirmou o que já tinha dito ontem sobre não contratar pessoas pela sua ideologia política ou partidária e que a prova de que a rede não impede conteúdos conservadores de se propagarem é que a Fox News é uma das páginas de maior engajamento na rede. Ele, porém, mostrou-se preocupado com a dificuldade de conseguir separar em larga escala o que era discurso de ódio do que eram ofensas ou manifestações políticas pertinentes.

Quando, mais tarde, foi abordado sobra a questão do terrorismo, Zuckerberg afirmou que tem mais de 200 pessoas trabalhando em ações antiterrorismo na empresa, mas que não podia garantir que não existirão "maus elementos" presentes na rede. Um dos deputados não ficou satisfeito com essa resposta e chegou a falar "eu espero que você se esforce mais para nos ajudar a combater esse problema, porque o que está sendo feito até agora não é o suficiente."

Competição

Um tópico também bastante abordado pelos congressistas foi em relação a um suposto monopólio do Facebook na sua área de atuação e sobre a rápida aquisição que o Facebook faz de outras empresas de tecnologia que possam ameaçar seus negócios. Esse ponto foi bastante utilizado em construções argumentativas que visavam a defesa da necessidade de uma regulamentação a empresa de Zuckerberg.

O CEO, porém, defendeu-se dizendo que "o americando médio usa oito apps diferentes para se comunicar". Ele reforçou por mais de uma vez que não enxerga o Facebook como um monopólio na área, mas cabe dizer que além da rede social principal, Zuckerberg também é dono de aplicativos como o Messenger, o Instagram e o Whatsapp.

Mudanças e críticas

Desde que as reportagens dos jornais "The New York Times" e "The Guardian" revelaram, em 17 de março, que os dados de mais de 50 milhões de usuários do Facebook foram usados sem o consentimento deles pela Cambridge Analytica, o Facebook se viu em meio a uma crise de imagem e confiança.

Mais tarde a empresa assumiu que o vazamento realmente tinha acontecido em 2015, que seus engenheiros tinham descoberto pouco tempo depois e pedido para que os dados fossem apagados, mas diante das mais recentes descobertas, percebido que isso não tinha sido suficiente. O Facebook afirmou que não viu necessidade de alertar os usuários sobre o que tinha acontecido e tampouco às autoridades legais já que pensou ter resolvido a questão. Hoje, Zuckerberg admitiu ter sido um erro e se comprometeu a avisar os usuários "tão logo fosse descoberto novos ou futuros vazamentos".

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Em meio à turbulência, a principal crítica feita ao Facebook foi sobre a falta de transparência. Zuckerberg chegou a declarar durante comunicado que leu tanto na terça (9) quanto nessa quarta-feira (10) que a empresa tinha quebrado a confiança de seus usuários. Com dez horas de declarações públicas, em dois dias seguidos, diante dos congressistas americanos e com ampla cobertura da imprensa, Zuckerberg parece ter revertido o jogo, o que se deve também às mudanças que a empresa adotou, como:

  • cri ar um atalho para usuários alterarem de forma mais simples suas configurações de privacidade;
  • esmiuç ar a política de dados e os termos de serviço, para incluir formas de coleta de informação até então ausentes, detalhar algumas práticas e ampliar essas regras para Instagram e Messenger;
  • endurece r as normas de veiculação de campanhas políticas, para passar a exigir a identidade dos anunciantes;
  • restringi r o uso de dados de usuários por aplicativos que não sejam usados a mais de três meses pelas pessoas;
  • barrar o acesso aos dados de amigos da rede social de um usuário que compartilhou suas informações com determinado aplicativo ou software;
  • criar um programa de recompensas para quem denunciar abuso de coleta de dados na rede social.
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