Para além da acirrada disputa presidencial, o cenário político ganhou um novo protagonista durante as Eleições 2018: a internet. Entre os conteúdos sobre o assunto que circulam principalmente via mensagens, especialistas acreditam que o aplicativo WhatsApp não colaborou para a discussão, mas sim esvaziou o debate.
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Para Beatriz Martins, jornalista e autora do livro “Autoria em Rede: os novos processos autorais através das redes eletrônicas”, as plataformas virtuais são "um fenômeno novo e ainda em teste" quando o assunto é política. O foco da discussão, que costumava ser durante os horários eleitorais gratuitos no rádio ou na televisão e nas ruas durante carreatas de campanha, migrou em grande parte para o aplicativo WhatsApp
.
Nessas redes, a jornalista vê dois problemas: a quantidade demasiada de conteúdo e a falta de troca de opiniões. “É preciso ensinar as pessoas a lidarem com tanta informação. Saber o que é confiável e o que não é”, explica. Ela acredita que a circulação em ambientes fechados e “dentro das bolhas” não caracteriza um espaço público e, por isso, não permite um pensamento crítico, já que “não há oportunidade de contraditório”.
É justamente esse tipo de círculo vicioso de informações que torna o debate público vazio. Não há discussões sobre as propostas de cada candidato com temas relevantes, como saúde e educação , mas somente muito espaço para brincadeiras – como os memes e as notícias falsas, conhecidas popularmente na internet pelo termo em inglês, fake news .
Aplicativo WhatsApp e as fake news
Poucas vezes os conteúdos repassados via aplicativo de mensagens são comprovados. Um levantamento divulgado na última quarta-feira (17) , realizado pelos professores Pablo Ortellado (USP), Fabrício Benvenuto (UFMG) e pela Agência Lupa, revelou que apenas 8% das imagens compartilhadas pelos usuários do WhatsApp podem ser classificadas como verdadeiras.
A pesquisa é parte do projeto Eleições sem Fake, da universidade mineira, e analisou 347 grupos da rede social entre os dias 16 de setembro e 7 de outubro, quando o primeiro turno das eleições presidenciais deste ano estava em foco. Das 50 imagens mais compartilhadas e checadas, apenas quatro foram consideradas verdadeiras.
Com o início da disputa para o segundo turno, que ficou entre os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) , a disseminação de fatos inverídicos continuou sendo um tema frequente.
Você viu?
Nos últimos dias, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou uma plataforma própria para driblar as fake news e ontem (17) se reuniu com representantes das campanhas dos presidenciáveis para discutir a difusão massiva das notícias falsas.
Nesta quinta-feira (18), o jornal Folha de S.Paulo apresentou uma reportagem em que diz que algumas empresas estariam comprando pacotes de disparos em massa de mensagens pelo aplicativo WhatsApp, financiando diretamente uma campanha contra o PT. Haddad chamou o caso de “tentativa de fraude eleitoral” e prometeu denunciar em todas instâncias possíveis , assim como o PDT de Ciro Gomes, terceiro colocado no primeiro turno das eleições de 2018, que afirmou pretender questionar o resultado das eleições ao TSE, baseado nas acusações de abuso de poder econômico e caixa 2 por parte da campanha de Bolsonaro.
Para o coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Fábio Gouveia, a expansão das fake news consolidou “uma tendência que já estava em curso antes da eleição: violência simbólica, desconstrução de imagem e desinformação”.
Segundo o especialista, a maneira como as redes sociais estão sendo usadas, além de causar desinformação, também afeta a credibilidade dos meios tradicionais de imprensa. Gouveia ressalta que o comportamento social dos eleitores de dizer que "a mídia mente", quando se deparam com alguma notícia apurada contra seu candidato, é preocupante, já que a desqualificação constante do trabalho da imprensa e a dificuldade de percepção de quando uma notícia é verdadeira ou não prejudicam a democracia. “Independentemente de quem vença em 28 de outubro, esse estrago está feito”, afirma.
Histórico das fake news
Apesar de terem conquistado maior força em 2018, a manipulação de assuntos pertencentes ao cenário político na internet começou em 2014, ano em que a ex-presidente Dilma Roussef (PT) e o deputado federal Aécio Neves (PSDB) disputavam o cargo presidencial.
No ano passado, a Diretoria de Análise de Políticas Públicas (Dapp), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), divulgou um estudo sobre as redes sociais naquele ano. De acordo com a pesquisa, foi ali que perfis automatizados começaram a motivar debates políticos no Twitter.
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Apesar de não terem foco, como neste ano, no aplicativo Whatsapp
, os dados apontam que 10% do debate sobre o assunto em 2014 foram gerados por robôs que decidiram as pautas conversada entre os internautas. No estudo, a Daap citou que com essas práticas “o mundo virtual tem permitido a adaptação de velhas estratégias políticas de difamação e manipulação de debates públicos, agora em maior escala.”
*Com informações da Agência Brasil