São muitas as áreas afetadas pela  pandemia  do  novo coronavírus  (Sars-coV-2) que sofreram forte queda no faturamento. Todavia, a indústria dos games vai na contramão. De acordo com um estudo realizado pela Newzoo, empresa especializada em compilar dados, a expectativa de lucro do mercado de games para 2020 é de US$ 159,1 bilhões, cerca de R$ 851 bilhões na moeda nacional. Quando a metragem é estendida para 2023, a pesquisa aponta lucros com margem de até R$ 1,7 trilhão (US$ 200 bilhões).   

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Pessoa jogando Free Fire no celular
Reprodução: TudoCelular
Pessoa jogando Free Fire no celular


Apesar de exorbitante à primeira vista, os US$ 159 bilhões são a soma dos lucros de três ramos diferentes do universo gamer, sendo eles console (45,2 bilhões), PC (US$ 36,9 bilhões) e mobile (U$ 77 bilhões). 

Os números, com destaque para o aumento no celular, segundo a Newzoo, “são consequências diretas do isolamento, visto que “durante esses tempos difíceis, os jogos se tornaram um meio de escapismo e preenchimento de tempo”. 

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Antes da pandemia, a engenheira Manuella Soares, de 27 anos, tinha apenas um jogo em seu smartphone, o sudoku. Com mais tempo em casa, ela acabou fazendo o download de novos games. “Não tenho muita paciência para série, então acabei buscando mais jogos. Estou me viciando em alguns. Atualmente estou viciada em sinuca on-line”, disse ela.

Manuella Soares, engenheira
Arquivo pessoal
Manuella Soares, engenheira

De quarentena e à procura de lazer, o securitário Armando Ferreira, de 29 anos, também acabou por se viciar em um game, o Free Fire, jogo mobile semelhante ao clássico Counter Strike. “Eu já tinha ouvido falar do jogo, mas não tinha dado atenção. Após algum tempo resolvi ceder às pressões e baixei. Além disso, fica mais legal com amigos”.

Ao  Portal iG , eles relataram, durante o isolamento, ver seu consumo aumentar exponencialmente. No caso de Armando, a ponto de perder a noção do tempo. 

“Antes eu jogava sempre por volta de 1 hora, que é o tempo entre o trabalho e a minha casa. Esses dias joguei das 20h até 23h (três horas). Como estou em regime de home office, às vezes termino de trabalhar, viro e começo a jogar. Fico até acabar a bateria do celular. Tem vez que coloco o carregador e continuo a jogar”, relatou o securitário.

Já Manuella, que também está em home office, percebe que seu consumo aumenta mais com a chegada do fim da semana. “Depende do dia, se for dia de semana, é coisa de 30 minutos a 1 hora. Agora, de final de semana eu gasto cerca de 2 horas a 2h30 por dia.”

Questionados se perdem a noção do horário enquanto jogam, os entrevistados entram em contraste. “Total! Às vezes estou jogando e esqueço até de comer, quando percebo já é 23h. Mesmo assim, permaneço até 01h, aí sim vou dormir mesmo”, afirma Armando entre risos. Já Manuella pondera: “Atualmente eu não perco as horas, mas já perdi”.

Corroborando os relatos cedidos à reportagem, Julio Vieitez, CEO da Level Up, grande marca de games, afirma: "Acredito que, nesse períodos de isolamento, teremos tanto novos jogadores quanto quem já jogava permanecendo mais tempo em seus títulos favoritos. Creio que todos os setores terão algum impacto, principalmente pensando no trabalho remoto que será fortemente impulsionado".

Compras nos games

Equipe da Level Up em um campeonato de game on-line
Reprodução: TudoCelular
Equipe da Level Up em um campeonato de game on-line

Não é de hoje que jogos cobram por vantagens, diamantes, moedas, skins e outros atributos que podem melhorar a experiência do jogador na plataforma. Ao  iG , Julio Vieitez revelou que só no mês de abril houve um aumento de 30% a 50% na venda de créditos e assinaturas da Level Up, além de 20% de novos usuários. 

Mesmo com o crescimento notório, ele prefere não cantar vitória, pois acredita que devido às atuais circunstâncias tudo pode mudar. “É difícil de mensurar, algumas pessoas estão com menos dinheiro do que em uma situação normal”, explicou ele, dando a entender que os jogadores, sejam eles novos ou antigos, podem acabar por priorizar outras despesas ao invés de compras nos jogos.

Armando Ferreira, securitário
Reprodução Instagram
Armando Ferreira, securitário

Sobre comprar vantagens nos softwares, Armando e Manuella sincronizam o discurso: “Nunca gastei dinheiro no jogo, embora eu esteja viciado, além de caro, não é algo que eu veja como necessidade. Eu prefiro esperar e ter as conquistas gratuitamente”, diz ele. A engenheira concorda: “Sou muito pão-duro. Teve um jogo que viciei no início da pandemia e era de evolução. Só que para conseguir evoluir você precisava basicamente comprar vantagens. Porém, eu conseguia fazer tudo assistindo anúncio, eu assisti muito anúncio. Eu cansei, decorei todos os anúncios, às vezes eu estava trabalhando e deixava o celular rodando os anúncios para poder ter os diamantes”. 

Ao falar sobre como a situação atual mudou o comportamento deles em relação ao consumo de jogos, eles mostram horizontes diferentes: “Antes eu jogava basicamente um jogo, o sudoku. Agora eu estou sempre caçando outros jogos. Eu pulei de um jogo para três ao mesmo tempo”,afirma Manuella. 

Já Armando, viu o vício no jogo suprimir o gosto pelos demais: “Eu jogava Pokémon Go e outro de tiro, mas o Pokémon depende de estar na rua, então morreu. O outro ele é mais rápido e exige menos atenção, então jogo quando estou fora de casa”.

Os jogos, além de serem uma maneira de entreter, mostraram-se uma boa ferramenta para as pessoas manterem contato com amigos. “Comecei a jogar games em grupo, como stop on-line, porque é um forma de estar com meus amigos. Eu consumia zero e depois da pandemia comecei a consumir com muita frequência”, relatou Soares.  “ Eu sou bem competitivo, ainda mais que é on-line, assim posso competir com meus amigos ”, continuou Ferreira.

O mundo dos games após pandemia

Ilustração do clássico Pac-Man
Unsplash/Sei Kakinoki
Ilustração do clássico Pac-Man

Apesar do crescimento diário do número de infectados e mortos pelo novo coronavírus ao redor do mundo, um dia a pandemia terá fim. Levados a especular sobre o consumo de games que terão quando esse dia chegar, Julio, Armando e Manuella corroboram um ao outro.

Jogador impulsionado pela quarentena, Armando não nega que seu permanecimento no jogo diminuirá. “Quando voltar tudo ao normal vai diminuir bastante. Até porque hoje a minha carga horária está reduzida. Além disso, tem o tempo em transporte e outras atividades que faço.”

Eu acredito que vai cair sim porque vou voltar a sair e ter outras atividades além de trabalhar e ficar em casa, vai voltar ao normal. Se voltar ao que era antes, eu vou me contentar apenas com o sudoku. Se continuar com restrições, talvez eu fico com mais algum jogo, de qualquer maneira, eu acho que vai reduzir meu consumo ”, completa Manuella. 

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Por fim, o CEO da Level Up também reconhece que o consumo pode diminuir após a pandemia de Covid-19 , mas acredita no mercado: “ Uma coisa é certa: com ou sem isolamento a indústria de games seguirá se reinventando, criando conteúdos inovadores e buscando entrar em contato com os gamers por diferentes canais, ganhando cada vez mais espaço nos programas e veículos de comunicação de massa ”.

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