
O despertador toca, a mão procura o celular e, antes mesmo de levantar da cama, começa a sequência: uma notícia ruim, um vídeo, uma publicação nas redes sociais, outra manchete, mais um comentário. Quando a pessoa percebe, já passou um bom tempo consumindo informações que, em vez de prepará-la para o dia, deixaram uma sensação de irritação, ansiedade ou cansaço.
Esse comportamento tem nome: doomscrolling — a rolagem contínua por notícias e conteúdos negativos, geralmente em feeds que nunca terminam. O termo ganhou força durante a pandemia de Covid-19, quando acompanhar em tempo real números de casos, mortes e medidas de restrição se tornou parte da rotina de milhões de pessoas. O hábito, porém, permaneceu mesmo depois daquele período.
E há uma diferença importante quando essa prática acontece logo pela manhã. Para a psiquiatra e psicoterapeuta Nina Ferreira, autora do livro Sinto Muito!, lançado na Bienal do Livro de São Paulo em setembro, o problema está no tipo de estímulo ao qual o cérebro é submetido justamente no momento em que começa a organizar o funcionamento do organismo para o restante do dia.
O que acontece quando o dia começa com notícias ruins?
De acordo com Nina, acordar e imediatamente mergulhar em notícias negativas ou conteúdos que provocam comparação, medo, raiva, vergonha ou sensação de insuficiência pode colocar o organismo em um estado de maior alerta.
O cérebro possui mecanismos destinados a identificar ameaças. Quando interpreta determinado estímulo como perigoso, o organismo pode ativar a resposta de estresse. A liberação de hormônios como adrenalina e cortisol prepara o corpo para responder a uma situação percebida como ameaça.
O problema é que o celular permite que esse mecanismo seja acionado repetidamente por acontecimentos que estão muito distantes da realidade imediata de quem está lendo.
"É como se o organismo sentisse que está sendo ameaçado de alguma forma e se preparasse para brigar ou fugir", explica a psiquiatra.
Para Nina, começar o dia dessa maneira significa direcionar parte dos recursos de atenção e energia para preocupações que nem sempre têm relação direta com a vida daquela pessoa.
"É como se o cérebro e o corpo direcionassem seus recursos para aquela preocupação gerada pelas notícias ruins", afirma.
Por que o mau humor aparece justamente pela manhã?
O impacto do comportamento pode ocorrer independentemente do horário, mas, pela manhã, seus efeitos podem ficar mais perceptíveis porque ainda há muitas horas de atividades pela frente.
Depois de acordar, será preciso trabalhar, estudar, tomar decisões, lidar com outras pessoas, resolver problemas e controlar impulsos. Se o cérebro começa o dia em estado de alerta, essas tarefas podem ser afetadas.

Nina Ferreira, psiquiatra e psicoterapeuta, fala sobre os efeitos de começar o dia consumindo notícias negativas no celular
Segundo a especialista, entre os sinais que merecem atenção estão irritação, ansiedade, desatenção, esquecimentos, redução da energia, maior impulsividade e alterações na disposição para trabalhar ou praticar atividades físicas.
Isso não significa que qualquer manhã ruim seja causada pelo celular. Humor, energia, sono e capacidade de concentração são influenciados por diversos fatores. A própria médica ressalta que essas alterações podem ser multifatoriais, embora o uso excessivo do celular para consumir conteúdos negativos possa contribuir para esse quadro.
Por que é tão difícil parar?
Existe uma contradição no doomscrolling: a pessoa percebe que determinado conteúdo lhe faz mal, mas continua procurando a próxima notícia.
Uma possível explicação está no próprio mecanismo de proteção do cérebro. Ao encontrar uma informação sobre uma ameaça, a tendência humana é querer saber mais. Afinal, conhecer o perigo pode parecer uma forma de se preparar para ele.
"Se isso é perigoso, é melhor eu saber para me preparar e evitar o risco também", explica Nina, ao descrever o raciocínio que pode estar por trás desse comportamento.
Os feeds infinitos das redes sociais tornam esse processo ainda mais fácil de manter. Uma publicação leva à seguinte e, como os sistemas de recomendação aprendem com a interação do usuário, conteúdos semelhantes podem continuar aparecendo.
Nina faz, porém, uma ressalva importante: não é possível afirmar que doomscrolling seja um vício ou uma dependência no sentido clínico formal, já que, segundo ela, não existem estudos suficientes para fazer essa afirmação científica.
O que pode acontecer é a consolidação de um padrão comportamental. Quanto mais determinada ação é repetida, mais familiar ela se torna para o cérebro.
Preço para foco, memória e produtividade
A enxurrada de informações negativas também pode competir com recursos mentais necessários para outras tarefas.
Para explicar a relação com produtividade, Nina parte de uma definição simples: ser produtivo não significa fazer o maior número possível de coisas, mas conseguir realizar o que é necessário com o menor gasto de energia e recursos.
Se o cérebro passa a manhã mobilizado por uma preocupação, fica mais difícil distribuir atenção entre diferentes demandas.
"Não temos recursos biológicos, como foco, atenção, memória, raciocínio e energia, disponíveis para tudo ao mesmo tempo", afirma.
É como começar o expediente com parte da capacidade mental já ocupada por acontecimentos que de outros lugares e que, na maioria das vezes, não exigem nenhuma ação imediata daquele usuário.
E se o doomscrolling acontecer à noite?
Trocar a manhã pela noite não resolve necessariamente o problema. Segundo a psiquiatra, o comportamento pode produzir alterações semelhantes independentemente do horário. A diferença é o momento em que o organismo precisa lidar com elas.
À noite, a pessoa deveria estar caminhando para um estado de relaxamento que favoreça o sono. A exposição a conteúdos que provocam ansiedade, medo ou irritação pode dificultar esse processo.
Além disso, permanecer no celular por longos períodos pode simplesmente atrasar a hora de dormir.
Como abandonar o hábito pela manhã?
Para quem quer interromper o hábito, Nina não recomenda simplesmente retirar o celular da rotina e deixar um vazio no lugar.
A estratégia, segundo ela, é substituir o comportamento por outra atividade que seja minimamente prazerosa.
Pode ser tomar banho ouvindo música, fazer o café da manhã com mais calma, caminhar ou qualquer outra atividade que produza uma sensação agradável e ajude a ocupar aquele primeiro momento do dia.
"Não adianta apenas parar, é preciso colocar alguma outra atividade no lugar", afirma.
A especialista também alerta que a mudança pode ser desconfortável no começo. Quando um comportamento repetitivo é interrompido, a vontade de realizá-lo pode aumentar antes de diminuir. A substituição por uma atividade agradável ajudaria a atravessar esse período de adaptação.
Informação não é o problema
Parar de acompanhar notícias não é a proposta. Manter-se informado faz parte da vida em sociedade e pode ampliar a compreensão sobre o mundo.
A questão está no excesso e, principalmente, na relação automática com a tela. Uma pergunta simples pode ajudar: depois de alguns minutos rolando o feed, você está se sentindo melhor ou pior do que quando começou?
Se a resposta for consistentemente "pior", talvez seja hora de interromper a sequência.
A mudança não precisa começar com uma grande transformação digital. Pode começar com algo bem mais simples: não deixar que a primeira coisa que o cérebro encontre pela manhã seja uma sucessão de problemas que não pertencem àquele momento da sua vida.