Marcos Pontes na infância
Arquivo pessoal/Senador Astronauta Marcos Pontes
Marcos Pontes na infância


Nos últimos dias, uma declaração do presidente Lula sobre garis e trabalhadores da limpeza urbana provocou grande repercussão no país. Durante um evento em Belo Horizonte, ao falar sobre pobreza e invisibilidade social, Lula classificou o trabalho de quem recolhe lixo como uma “profissão muito pobre” e afirmou que não seria uma profissão que dá orgulho, fazendo uma comparação com médicos e engenheiros. Também associou a atividade a quem não teve oportunidade de estudar. Na sequência, reconheceu a importância desses trabalhadores e argumentou que sua ausência por alguns dias seria suficiente para que a sociedade percebesse o quanto são essenciais.

Entendo a discussão que ele pretendia fazer sobre invisibilidade e desigualdade. Mas discordo profundamente da maneira como colocou a questão. Porque não existe profissão de pobre. Existe trabalho honesto. E trabalho honesto é motivo de orgulho. 

Sei disso não apenas como senador da República, mas pela minha própria história.

Meu pai era faxineiro

Quero voltar algumas décadas no tempo. Para uma rua sem asfalto na periferia de Bauru, no interior de São Paulo. Ali morava um menino chamado Marcos, filho de seu Vergílio e dona Zuleika. Meu pai era faxineiro.

Todos os dias, ele saía cedo para trabalhar. Voltava para casa cansado, depois de cumprir mais uma jornada para colocar comida na mesa e sustentar nossa família. 

O trabalho era simples. A vida também. Mas nunca houve nada de pequeno naquilo que meu pai fazia.

Nunca o vi abaixar a cabeça por ser faxineiro. Ao contrário. Foi observando aquele homem trabalhar que aprendi algumas das lições que carregaria comigo pelo resto da vida: responsabilidade, disciplina, honestidade, perseverança e dignidade.

Meu pai talvez não soubesse, naquele momento, mas enquanto limpava e trabalhava para sustentar nossa casa, estava ajudando a construir algo muito maior. Estava construindo o futuro dos próprios filhos.

Do SENAI ao espaço

Aos 14 anos, comecei um curso no SENAI para me tornar eletricista aprendiz na Rede Ferroviária Federal. Eu precisava trabalhar. Minha família precisava. Mas também sabia que a educação poderia abrir novos caminhos.

Continuei estudando. Vieram a Academia da Força Aérea, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica, a Engenharia, a aviação e anos de preparação até ser selecionado para representar o Brasil no programa espacial. 

Em 2006, embarquei em uma nave Soyuz, no Cazaquistão, em direção à Estação Espacial Internacional. Aquele menino que cresceu em uma rua sem asfalto em Bauru se tornou o primeiro astronauta brasileiro. E há uma frase que resume muito dessa trajetória: Meu pai era faxineiro. E eu cheguei a ser astronauta.

Não digo isso para diminuir o trabalho do meu pai diante daquilo que conquistei.

Muito pelo contrário. Digo porque uma coisa só foi possível porque a outra existiu.

Antes do astronauta, existiu o filho de um trabalhador. Antes da nave espacial, existiu a casa sustentada pelo salário de um faxineiro. Antes de olhar a Terra do espaço, existiu um pai que saía cedo para trabalhar e ensinava aos filhos, pelo exemplo, que dignidade não depende do cargo que ocupamos.

Gari, faxineiro, médico ou engenheiro: todo trabalho digno merece respeito

Por isso me incomoda a ideia de estabelecer uma espécie de hierarquia moral entre as profissões. É evidente que precisamos criar condições para que todos os brasileiros tenham acesso à educação e possam escolher seus próprios caminhos profissionais. Precisamos melhorar salários, oportunidades e condições de trabalho.

Mas educação não pode ser usada para dividir brasileiros entre profissões das quais deveríamos sentir orgulho e profissões das quais deveríamos sentir vergonha. Um engenheiro merece respeito, assim como um médico, professor, gari e faxineiro. Um motorista, uma empregada doméstica, um pedreiro, um agricultor e tantos outros trabalhadores também.

Porque o valor de uma pessoa não está no nome escrito em seu crachá. Está na dignidade com que ela constrói sua vida. 

Quem limpa nossas cidades não é invisível

Existe ainda outra questão importante nessa discussão. Os profissionais da limpeza urbana exercem um trabalho essencial. É justamente quando a coleta para que muitas cidades percebem rapidamente a dimensão do serviço que essas pessoas realizam,  um ponto que o próprio presidente reconheceu em seu discurso.

Mas eles não deveriam precisar parar de trabalhar para serem enxergados. Não deveríamos perceber um gari apenas quando o lixo se acumula na calçada. Precisamos enxergar a pessoa antes disso.

O trabalhador que acorda de madrugada, que enfrenta sol e chuva, que corre ao lado de um caminhão, que volta para casa cansado, que paga suas contas, que cria seus filhos e que tem planos e sonhos para eles.Talvez exista hoje, em alguma periferia brasileira, um pai limpando um prédio enquanto o filho estuda para ser engenheiro.

Talvez uma mãe esteja trabalhando na limpeza de um hospital enquanto a filha sonha em se tornar médica. E talvez exista um faxineiro sustentando, sem saber, um futuro astronauta. Eu conheço essa história. Porque ela é a minha.

O Brasil precisa valorizar quem trabalha

Uma das maiores responsabilidades de quem exerce uma função pública é nunca perder a capacidade de enxergar as pessoas por trás das estatísticas. Quando falamos de trabalhadores, não estamos falando apenas de categorias profissionais, renda ou indicadores econômicos. Estamos falando de famílias, sonhos e histórias. De brasileiros que acordam todos os dias e ajudam este país a funcionar.

Podemos e devemos discutir melhores salários, qualificação profissional, educação e oportunidades. Precisamos permitir que cada brasileiro tenha liberdade para construir o futuro que desejar.

Mas isso começa reconhecendo que nenhum trabalho honesto envergonha uma pessoa. Ao contrário. O trabalho digno constrói famílias, forma caráter, transforma gerações e abre caminhos.

Meu pai não teve um título importante. Não foi engenheiro nem médico nem astronauta. Meu pai era faxineiro. 

E poucas coisas na minha vida me dão tanto orgulho quanto poder dizer isso.

Porque antes de eu conseguir chegar ao espaço, foi o trabalho dele que me deu chão.

E foi daquele chão que eu pude alcançar as estrelas.

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