Rádio Eldorado
Reprodução/Instagram
Rádio Eldorado

Eu juro que achei que não leria mais uma notícia como essa. Imaginava que, a essa altura do campeonato, não fosse mais possível encontrar empresas da chamada “mídia formal” ainda sustentando seu modelo de negócio com uma lógica de audiência analógica.

Foi difícil entrar no elevador do meu prédio, na última sexta-feira, e ler no elemídia que a Rádio Eldorado, aquela dos “melhores ouvintes”, encerrará suas atividades.

A minha surpresa talvez seja, em parte, uma percepção de bolha. A única rádio que escuto regularmente é a Eldorado. Amo podcasts, escuto vários, já criei alguns. De forma alguma sou antitecnologia ou defensor de grandes grupos que, por décadas, controlaram o jornalismo no país - como é o caso da família Mesquita, donos do Estadão e da Eldorado. No entanto, sou daquele tipo antigo que ainda gosta de entrar no carro e não ter que escolher o que ouvir.

Ficar à mercê de um algoritmo do Spotify para definir meu gosto musical também é uma volta ao próprio umbigo. E, sinceramente, isso não tem a menor graça.

Por isso, há muitos e muitos anos, a Eldorado faz parte da minha rotina. Desde um passado remoto, quando eu dirigia até a Berrini para trabalhar, até hoje, quando levo minha filha para a escola ou para o clube.

Para alguém da minha geração e com o meu apreço por música, a Eldorado era perfeita: aquele rockzinho tranquilo dos anos 80, indie na medida, música brasileira que não se resume à MPB, música nova que parece antiga e música antiga que parece nova. Conheci muita coisa boa com o “Selo Eldorado de Qualidade”.

A curadoria musical era intercalada com jornalismo. E jornalismo de verdade. Tudo ancorado na redação do Estadão. E sim, eu sei que o jornal há anos derrapa absurdamente em alguns editoriais e posicionamentos, mas não dá para negar que ali, historicamente, se fez jornalismo.

As colunas da Patricia Ferraz me davam fome. As entrevistas do Paulo Lima na Trip FM são uma grande referência para o Inteligência Orgânica. Marina Person capturava minha atenção, saudosa, com sua “hora de falar de música… e de cinema”. Como aprendi com o genial André Gois e seu “Hora da Vitrola". E eu sempre fiquei imaginando o que deveria fazer para ter uma coluna como a da Baba Vacaro, que, na minha cabeça, só pode ser uma senhora muito chique e muito viajada. 

Ainda na sexta-feira, no “Som a Pino”, chorei com a Roberta Martinelli e seus ouvintes. Já tentei ligar várias vezes para o programa e nunca consegui. Mas a verdade é que os relatos de famílias em luto com o fim da rádio me deixaram mais irritado do que triste.

Como é possível que uma empresa com uma comunidade tão forte, com um hábito de consumo tão arraigado e com uma audiência tão afetivamente conectada, passe por dificuldades financeiras em 2026?

Eu não me conformo.

Kevin Kelly, o célebre futurista e fundador da Wired, publicou em 2008 o artigo “1,000 True Fans”, ou “mil fãs verdadeiros”. A tese é simples: qualquer artista com mil fãs verdadeiros, aqueles dispostos a comprar tudo o que ele faz, nunca morreria de fome. A internet seria justamente o canal capaz de viabilizar essa sobrevivência.

É inacreditável que, quase vinte anos depois, ainda existam empresas da mídia tradicional que não entenderam isso. É surreal que uma rádio como a Eldorado ainda pareça operar como se seu principal negócio fosse a venda de publicidade, como era há setenta anos.

E pensando bem aqui comigo — sem dados, sem bastidores, sem planilha, pura especulação de fã —, pela programação da rádio, eu duvido que os “melhores ouvintes” pertençam a qualquer classe social que não seja alta, com boa parte deles na faixa dos 40 anos para cima, como eu.

Ou seja: estamos falando de um público com alto poder aquisitivo, gosto refinado e, muito provavelmente, algum dinheiro disponível para gastar com cultura.

Será que, em um país de Hotmart, não houve um iluminado na direção dessa empresa que tenha acendido uma luz e pensado: “E se a gente criasse um produtinho digital?”

Olha o clube do livro da Prioli com o Karnal fazendo fortuna há anos. Olha o clube do livro do Calma, Urgente! Olha os cursos da Casa Folha. Será que não teve um executivo com meio neurônio para propor uma parceria com eventos como o Alma Talks ou o Fronteiras do Pensamento? Será que não apareceu um gênio na conversa do bebedouro para dizer que uma agência de viagens poderia criar um roteiro guiado pela Baba Vacaro? Um curso de cinema com Marina Person? Um jantar especial e exclusivo com curadoria da Patricia Ferraz? Uma comunidade paga de música, cultura, viagens, livros, entrevistas e encontros presenciais com o “selo Eldorado de qualidade”?

Eu sou um sapo de fora. Portanto, sei que o que estou fazendo é, de certo modo, cruel e superficial. Não tenho informações internas. Não conheço os números. Nunca trabalhei no Estadão. Estou fazendo apenas uma autópsia do que vi como ouvinte, como fã, como alguém que nunca gastou um real com nada da Rádio Eldorado.

E por quê?

Porque nunca me ofereceram nada com intensidade. Nada que eu achasse que valia a pena.

Fui olhar o Instagram da rádio, que nunca me senti impelido a seguir. Aí entendi que o buraco era ainda mais embaixo. Na descrição do perfil, há dois números de WhatsApp não clicáveis.

Só nisso já se vê o desprezo incompreensível por uma estratégia mínima para os canais digitais.

Em pleno 2026, aí não dá.

RIP, Rádio Eldorado. 

Sentirei muita falta! Minha sincera gratidão e admiração a todos os jornalistas e demais funcionários que construíram essa história. Desejo boa sorte a todos em seus novos desafios.

PS: descobri que tem um clube do livro ativo no link na bio, mas algo me diz que foi criado tarde demais. Uma pena!

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