Retribuição Tamagotchica
Imagem gerada por IA
Retribuição Tamagotchica

Na última semana a OpenAI lançou o Dots, uma nova interface de agentes de IA que praticamente aposenta o Chat GPT. Meu primeiro pensamento foi o clichê: pronto, chegamos no “Ela”. Aquele futuro que o Spike Jonze desenhou, com a gente conversando o dia inteiro com um produto que resolve a nossa vida e ainda tem a voz da Scarlett Johansson. Mas, se olharmos com um pouco mais de atenção, talvez o filme que melhor retrata nosso presente/futuro seja outro. 

O Dots tem um design fofinho, bolinhas coloridas com carinha, prometendo tomar conta de tudo e "nos liberar" de qualquer coisa que exija um mínimo de habilidade técnica com o computador. O Diogo Cortiz bem apontou num post no LinkedIn que esse design serve para diminuir a rejeição que as pessoas têm de ferramentas de IA nos EUA. Tanto que Muse, que a Meta lançou há poucas semanas, e o Grok Bot seguem a mesma cartilha. 

Foi aí que me veio à cabeça o filme O Demolidor.

Aquele com o Stallone e o Wesley Snipes, lá de 1993, inspirado no Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley. Na “San Angeles” do futuro (2032), a sociedade inteira é absurdamente infantilizada. Os adultos não escutam mais rock, ao invés disso eles cantam jingles de comerciais com o entusiasmo de uma criança no recreio. Um sensor na parede multa qualquer palavrão na hora que alguém diz e a linguagem fica tão higienizada que ninguém consegue mais expressar direito o que sente. Ninguém se toca, nem para cumprimentar. Sexo, só com capacete de realidade virtual. Sal, açúcar, carne e cafeína são ilegais. E, quando aparece um psicopata de verdade descongelado dos anos 90, a polícia entra em pânico e consulta um computadorzinho de mão pra saber como abordar o sujeito porque ninguém ali sabe mais o que fazer sem ele.

Agora, olhando de novo pras bolinhas do Dots. É um design que conversa direto com quem passou parte da infância alimentando um Tamagotchi. Tem um quê de nostalgia ali. Parece que a turma do Vale do Silício quer cutucar uma parte muito específica do meu cérebro, aquela que sente que o bichinho finalmente está retribuindo todas as horas de carinho que dedicamos a ele. O velho gatilho mental da reciprocidade agindo com força.

Eu não sei se vou passar parte da minha vida pedindo pra um bichinho azul fofinho fazer o meu trabalho. Será que queremos morar em San Angeles? O fato é que, depois de trinta anos, o Tamagotchi finalmente está pronto para retribuir. Só esqueceram de avisar que, nessa troca, quem virou o bichinho fomos nós.


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