
Toda semana eu entro em sala de aula para tentar convencer adultos de que a máquina mente pra eles. As IAs foram treinadas para bajular. Você manda um plano de negócios meia-boca e ela devolve um elogio à sua visão estratégica. Você pergunta se está certo e ela, gentilmente, concorda. É o puxa-saco mais eficiente que a humanidade já construiu e estamos todos seduzidos.
Mas esse era o mundo 1.0. Agora apareceu o usuário 2.0. Aquele que chega na aula todo orgulhoso: "O meu Claude me elogiava demais, aí eu dei um prompt matador e agora ele até me destrata!" Pronto. Com uma instrução, ele acredita ter exterminado a sycophancy da IA dele. E é aí que mora o problema. Convencido de que a máquina deixou de lamber seu ego, ele baixa a guarda. Quando vem uma crítica, ótimo, prova de que o prompt funcionou. Quando vem um elogio, melhor ainda, porque agora ele acha que o elogio é merecido. E assim ele fica ainda mais feliz com o resultado e ainda mais apaixonado por tudo o que a IA entrega.
Estou problematizando demais? Talvez. Mas, guenta aí, tem mais.
Na minha bolha, todo mundo usa IA pra tudo. Para escrever e-mail pro chefe, pra montar o cardápio da semana, pra desabafar sobre o casamento às duas da manhã. É uma galera que está com a vida entranhada nessa tecnologia.
Só que as mesmas pessoas que passam o dia na IA (e que, lentamente, vão se apaixonando por ela, mesmo sem declarar isso abertamente ou sem se entender dessa forma) passam a noite no feed lendo que a IA vai roubar o emprego delas, que a humanidade tem uns cinco anos de prazo, que o fim é inevitável.
Todo mundo chega na aula com uma mistura estranha de dependência e pavor. Usam todo dia a ferramenta que acreditam que vai acabar com eles. E, entre o bajulador e o profeta do apocalipse, ficam exatamente onde estão.
Neste fim de semana, o psicólogo Jay Van Bavel, professor de psicologia e neurociência da Universidade de Nova York, publicou no Guardian um texto sobre o problema de dizer às pessoas que o mundo está acabando, seja pelo clima, seja pela IA. Ele é coautor de um dos maiores experimentos já feitos sobre comunicação climática, com um universo de mais de 59 mil participantes em 63 países.
Os estudiosos entenderam que mensagens no estilo catástrofe iminente são campeãs num quesito: depois de ler, as pessoas ficam 12% mais propensas a compartilhar conteúdo nas redes. Em compensação, reduzem o engajamento numa tarefa que exigia esforço de verdade (trabalho em troca de doações pro plantio de árvores). Ou seja, ao mesmo tempo que o apocalipse gera clique, também gera anestesia em relação a qualquer ação.
A boa notícia é que o mesmo estudo mostra a saída. A mensagem que venceu em praticamente todos os quesitos (menos no compartilhamento, claro) foi a mais sem graça de todas: os fatos, apresentados com sobriedade e o respaldo de 99% dos cientistas.
E uma orientanda do Van Bavel, Danielle Goldwert, descobriu que mostrar os ganhos emocionais de agir, como esperança e conexão, faz as pessoas saírem do lugar.
Afinal, sem um motivo pra ter esperança, a gente está condenado a rolar o feed enquanto o mundo pega fogo. Com a IA, o risco é ainda mais confortável. Ninguém nem precisa rolar o feed. Basta perguntar pra ela se o mundo está mesmo acabando e esperar. Nostradamus precisou de quase cinco séculos de intérpretes. A IA confirma a profecia em segundos.