
Quem acompanha o desenvolvimento da inteligência artificial estava apreensivo a respeito do uso de deepfakes nessas eleições. Eu mesmo, desde 2023, uso a frase “Se é pixel, não é real” em quase todas as minhas aulas e palestras numa tentativa de ampliar o pensamento crítico sobre qualquer conteúdo que consumimos em telas. A ideia é que, ao ver qualquer coisa no celular, desconfie se aquilo é mesmo de verdade.
Por isso, imaginava que veríamos muito mais vídeos dos candidatos afirmando coisas que nunca disseram em situações de que nunca participaram. E que as campanhas teriam um trabalhão para desmentir esses conteúdos.
Mas não foi exatamente isso que aconteceu. Ou melhor, não afirmo que essa situação não tenha acontecido pontualmente, mas essa estratégia foi absolutamente marginal se comparada ao uso de conteúdo gerado por IA que inundou nossa nação.
O que gerou like e compartilhamento foram figurinhas de zap, vídeos de Flávio e Lula dançando, um ganhando do outro em esportes inusitados, os dois ocupando o lugar do personagem principal em outros memes famosos. Lula comemorando um gol, Flávio como se fosse um ator de Top Gun… Músicas e mais músicas de sátiras feitas com IA, mas com dancinhas reais.
Nos porões da internet ainda virou negócio colocar mulheres digitais em palanques para vender conteúdo pornográfico. O crescimento desse negócio me lembra muito uma cena do clipe “Do the Evolution” do Pearl Jam. E fica a reflexão: se você só vai ver uma imagem de um corpo nu ou até de um ato sexual na tela do seu celular, faz diferença se essas pessoas existem na realidade ou não?
Pelo tanto de conteúdo assim que está surgindo, me parece que a realidade material é totalmente descartável. E isso não vale só para pornografia.
Ao longo desse ano, foram tantas informações novas, tantos documentários, tantos fatos, notícias, opiniões. Tantas conversas com Vorcaro, tantas manchetes sobre Lulinha, tantas ligações com bandidos, tantos documentos incriminadores, tantas cenas e confrontos que transformaram debates de 180 minutos em incontáveis horas de cortes com edições lacradoras para ambos os lados.
Seja honesta(o), você também sentiu que, em algum momento ali no meio do processo eleitoral, nada mais fazia sentido e nenhuma mensagem ressoava? Ninguém convencia ninguém. Você mandava um vídeo pro seu amigo que vota no outro lado e ele te respondia com outro vídeo refutando o que você disse com a explicação que faz sentido para ele. E vocês ficavam nisso num looping eterno.
As pessoas estão tão entupidas de lixo digital que todo esforço se anula.
É o puro suco da iconofagia, termo criado pelo professor Norval Baitello Junior para falar de imagens que devoram imagens e acabam nos devorando, aqui aplicado não apenas a imagens, mas a qualquer tipo de informação. Estamos anestesiados pelo excesso.
Muito se fala hoje que a virada se deu porque a esquerda finalmente entendeu como utilizar as redes sociais a seu favor, e isso fez a diferença. A pergunta a ser feita agora é: a que custo? Então, agora que esquerda e direita aprenderam a jogar o jogo, é hora de questionar se vale a pena disputar a partida nesse campo atual.
Ninguém aguenta mais entregar o destino do país a plataformas estrangeiras com regras próprias e escusas, sobre as quais ninguém pode opinar e cujo funcionamento ninguém consegue entender de forma clara.
O interessante é que, apesar de tudo, o que apareceu nesse segundo turno foi justamente o que o algoritmo das big techs não conseguiu abafar.
Gente de verdade fazendo vídeo de verdade para se posicionar pela primeira vez. Gente que nunca votou que apareceu para votar. Gente com mais de 70 anos que não precisava votar, mas, mesmo assim, foi do jeito que deu.
Na democracia ainda prevaleceu o “algoritmo da vida real”. Aquele que a religião e a ciência tentam explicar, cada uma à sua maneira.