Meta pede fim do segundo intercalar
Unsplash/Dima Solomin
Meta pede fim do segundo intercalar

Estamos acostumados a ver notícias da Meta envolvendo redes sociais, aplicativos e o metaverso. Tudo isso depende de servidores, e estes servidores dependem de relógios. Por isso, um engenheiro e um cientista da empresa estão pedindo o fim do segundo intercalar. Este segundo "extra" existe para acertar o relógio com a rotação da Terra, mas pode causar problemas a computadores.

"Segundo o quê?"

Calma, vamos começar do começo.

O dia do relógio tem 24 horas, todas de 60 minutos, e todos os minutos de 60 segundos, totalizando 86.400 segundos. É bem exato e sempre igual.

A rotação da Terra, porém, não é tão bonitinha assim. Ela tem algumas irregularidades minúsculas, devido a marés, derretimento e congelamento de geleiras, e convecção do manto terrestre, entre outros fatores.

Em 1972, a rotação da Terra durou aproximadamente 86.400,003 segundos; em 2016, 86.400,001 segundos.

Ou seja: a rotação da Terra tende a ser um pouco mais lenta que o relógio. Por isso, o horário atômico internacional e o horário solar aparente podem ficar descompassados.

Quando a diferença é maior que 0,9 segundo, um segundo intercalar é introduzido no Tempo Universal Coordenado, o UTC. Isso geralmente é definido com alguns meses de antecedência.

Um segundo intercalar é literalmente um segundo a mais no relógio UTC. Ele entra entre o 23:59:59 e o 00:00:00. O último foi em 31 de dezembro de 2016. Naquele dia, o UTC passou de 23:59:59 para 23:59:60 (!) para 00:00:00.

Existe, porém, a possibilidade de a rotação da Terra estar adiantada em relação ao relógio. Isso não é tão improvável assim: em 2021, o planeta estava girando um pouco mais rápido que o normal, e registrou os 28 dias mais curtos desde 1960, todos com menos de 86.399,999 segundos.

Neste caso, cientistas começaram a discutir um segundo intercalar negativo. O relógio passaria de 23:59:58 para 00:00:00, pulando um segundo.

Segundo extra é pesadelo para servidores

Um segundo a mais ou a menos tanto faz para nós, humanos. Nós sabemos que horas são, e não precisamos de tanta precisão para acordar, entregar tarefas e comparecer a compromissos.

Com os computadores, isso é bem diferente — os mais jovens talvez não se lembrem, mas, durante os anos 90, houve um temor de problemas em larga escala causados pelo Bug do Milênio, quando os computadores poderiam não reconhecer o ano 2000. É por isso que a Meta está preocupada.

Oleg Obleukhov, engenheiro de produção, e Ahmad Byagowi, pesquisador científico, escrevem no blog de engenharia da empresa que o segundo intercalar já causou problemas para outras companhias.

Em 2012, o Reddit ficou 40 minutos fora do ar porque seus servidores ficaram confusos com a mudança de horário, travando as CPUs. Foursquare, LinkedIn e Yelp também tiveram problemas. Em 2016, o serviço de DNS do CloudFlare foi afetado.

Isso acontece, em grande parte, por arquivos com marcações de tempo incomuns — o tal do 23:59:60. Isso pode corromper discos e fazer as máquinas pararem de funcionar.

Outro problema é que, em alguns códigos, o segundo intercalar causa intervalos de tempo negativos. Como isso não está previsto no programa, surgem bugs.

A Meta, o Google e a Amazon usam uma técnica chamada "smearing" para evitar questões assim. Quando um segundo intercalar está previsto, a Meta "espalha" este segundo e deixa o relógio mais devagar por 17 horas. No Google, esse processo envolve as 24 horas antes do segundo extra.

Assim, o relógio não sai de sincronia, o segundo 23:59:60 não aparece nos arquivos, nenhuma variável de tempo fica negativa.

Funciona, mas a Meta ainda não está satisfeita — existem diferentes algoritmos possíveis para deixar o relógio mais lento, e diferenças entre os servidores podem surgir. Por isso, ela quer que o segundo intercalar acabe. E ela não está sozinha.

Meta quer fim do segundo intercalar

"Com a demanda cada vez maior por precisão de relógios em vários setores, o segundo intercalar está causando mais danos do que benefícios, resultando em distúrbios e interrupções", escrevem os engenheiros da Meta.

Obleukhov e Byagowi não são os primeiros a reclamar disso. Linus Torvalds, o criador do Linux, disse em 2012: "Quase toda vez que temos um segundo intercalar, descobrimos alguma coisa. É muito irritante, porque é um clássico caso de código que praticamente nunca roda, e nunca é testado pelos usuários sob condições normais".

Além da Meta e de Torvalds, Google, Amazon e Microsoft apoiam o fim do segundo intercalar. Duas agências governamentais também estão neste lado da briga: o Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia dos EUA (NIST) e o Escritório Internacional de Pesos e Medidas da França (BIPM). O BIPM, inclusive, é um dos responsáveis pelo Tempo Universal Coordenado (UTC).

Do outro lado, cientistas dizem que o fim dos segundos intercalares pode ter impacto na astronomia. Eles também argumentam que o Tempo Atômico Internacional (TAI) e o horário do GPS poderiam ser usados pelas máquinas. Esses dois relógios não usam segundo intercalar.

Por enquanto, ainda não se sabe o que vai ser decidido, e qual vai ser a solução para o problema. A União Internacional das Telecomunicações (UIT), uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU), encomendou um estudo após discutir o tema na sua conferência de 2015. O relatório deve ser publicado em 2023, quando a organização se reunirá novamente.

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