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Empresa americana já tem 125 milhões de assinantes e segue crescendo, mas 80% do conteúdo consumido na plataforma ainda é de terceiros. E agora?

Brasil Econômico

Netflix anuncia 7,4 milhões de novos assinantes entre janeiro e março de 2018
Netflix / divulgação
Netflix anuncia 7,4 milhões de novos assinantes entre janeiro e março de 2018


Quem vê notícias como a de um youtuber brasileiro que foi preso depois de tentar invadir um presídio  com o figurino da série "La Casa de Papel"  – além de ficar indignado – não é capaz de duvidar da influência que séries, filmes, documentários e outras produções audiovisuais exercem na vida das pessoas. Mas esse impacto está sendo ampliado em larga escala por uma empresa gigantesca que não para de crescer no mundo inteiro: a Netflix.

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É bem verdade que a televisão sempre teve esse poder, mas com raras exceções seus efeitos eram muito mais regionalizados. A Netflix , porém, vem servindo para romper essas barreiras. Se as TVs a cabo foram as desbravadores desse território, a empresa de streaming consolidou o modelo de distribuição global de conteúdos de uma vez por todas. Antes dela, dificilmente uma série exibida na rede espanhola Antena Tres ganharia fama no interior de Pernambuco.

Prova disso é que a Netflix acaba de anunciar que apenas entre janeiro e março deste ano, 7,4 milhões de novos assinantes aderiram ao serviço. Com isso, a empresa americana já acumula 125 milhões de usuários no mundo todo e, em breve, o percentual de clientes fora dos Estados Unidos superará o próprio mercado interno.

Por que sim?

Para seguir nessa rota de crescimento, o CFO da companhia David Wells anunciou ainda em fevereiro que a meta da empresa é investir US$ 8 bilhões em conteúdo ao longo do ano. Tudo isso para produzir mais de 700 episódios de séries e 80 filmes originais na plataforma. Apenas para estabelecer uma parâmetro: essa quantia é duas vezes maior do que a investida por qualquer outro estúdio e até cinco vezes maior do que o gasto anual da BBC (uma das maiores emissoras de TV do mundo) em toda a sua programação, incluindo ficção e jornalismo.

A estratégia da empresa é diversificar. Além de produzir conteúdos de impactos globais como Orange Is the New Black e Narcos , a empresa está apostando em produtos específicos para grupos locais como a mexicana Club de Cuervos , a alemã Dark e mesmo as brasileiras 3% e a mais recente O Mecanismo . É claro que se uma dessas produções decolar e virar um sucesso mundial não haverá problema, mas a estratégia original é que cada uma delas seja responsável por ajudar a conquistar novos assinantes em cada um de seus respectivos países.

Números tão robustos vêm reforçando a tendência de pânico em Hollywood. Vendo cada vez mais atores, diretores e produtores fechando contratos de exclusividade com a plataforma de streaming, vozes dissonantes dispostas a criticar a abrangência da Netflix e os possíveis impactos que isso acarretaria na indústria cinematográfica como um todo. O mais recente a se levantar e criticar o serviço foi ninguém menos que o premiado diretor Steven Spielberg.

Responsável pela direção de obras famosíssimas como Jurassic Park , Indiana Jones e A Lista de Schindler , Spielberg declarou que filmes criados pelo Netflix não deveriam ter direito a disputar premiações como o Festival de Cannes e o Oscar. "Se é um bom filme de TV, então merece um Emmy e não um Oscar", disse o diretor durante entrevista para a ITV News. A declaração ressoa com a de outro diretor importante, Pedro Almodóvar, que no ano passado presidia o juri do importante festival de Cannes e declarou que “parece um enorme paradoxo premiar um filme que não pode ser visto em uma sala [de cinema].”

Ele se referia a possibilidade de dois filmes da Netflix terem sido selecionados para a premiação mesmo depois de não cumprirem a regra informal de garantir uma exibição mínima nos cinemas franceses. No ano passado,  Okja e Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe estavam na disputa, mas não ganharam nada. As críticas dos concorrentes, porém, não cessaram.

A polêmica se arrastou para esse ano quando Cannes resolveu tornar a regra informal em obrigatória. Sobre isso, o diretor do festival, Thierry Frémaux, em entrevista ao portal especializado Variety, declarou que “no ano passado, quando selecionamos dois de seus filmes, eu pensei que poderia convencer a Netflix a lançá-los nos cinemas. Mas eles recusaram. É o modelo econômico deles, e eu respeito isso. Mas aqui trabalhamos com cinema e queremos que nossos filmes em competição sejam lançados no cinema. Este é o modelo dos amantes do cinema e a Netflix também tem que respeitar isso.”

Diretor do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, fez declarações duras a respeito da Netflix
Reprodução
Diretor do Festival de Cannes, Thierry Frémaux, fez declarações duras a respeito da Netflix


Frémaux chegou a ir ainda mais longe, declarando que "os filmes da Netflix do ano passado não fizeram história, eles simplesmente se perderam nos algoritmos do site. Um dia eles vão entender que a história do cinema e a história da internet não são a mesma coisa". A troca de farpas já era um indício do que a empresa americana acabou anunciando pouco tempo depois: não participará de Cannes nesse ano.

Segundo o diretor de conteúdo da Netflix, Ted Sarandos, a exigência foi encarada como "uma falta de respeito" pela plataforma. Durante entrevista concecida à Variety, ele afirmou que queria estar "em pé de igualdade com os outros cineastas" e que a direção do festival "optou por celebrar a distribuição em vez de celebrar a arte do cinema. Estamos 100% com a arte do cinema. E aliás, todos os outros festivais do mundo também."

A preocupação de Spielberg e companhia, porém, vai além da participação ou não da Netflix em festivais. O diretor também está preocupado com a transformação que o modelo de negócio das plataformas de streaming estão causando na indústria cinematográfica. Defensor da criação de filmes para exibição em telas grandes, Spielberg explica que “cada vez menos cineastas estão batalhando para conseguir financiar seus filmes ou competir em um festival enquanto a maioria está indo atrás de serviços de streaming para que eles paguem por seus projetos.”

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Trata-se mesmo de uma mudança sem precedentes na história da indústria audiovisual. Antes, não restavam dúvidas: se um diretor ou produtor precisava de financiamento para tirar seu projeto do papel, não havia lugar no mundo mais indicado do que Hollywood, já agora...

Os investimentos agressivos da Netflix não são à toa. No ano passado, a receita da empresa cresceu 43%, ultrapassando a barreira dos US$ 3,7 bilhões. Foram duas décadas compartilhando filmes e programas de terceiros, reunindo dados sobre seus usuários até chegar nesse nível de financiamento sem precedentes. Mas será que tudo isso é motivo para tanta preocupação assim?

Por que não?

Do US$ 1 bilhão que será investido esse ano, metade será destinada à produção de conteúdos originais como as já confirmadas próximas temporadas de Stranger Things , House of Cards , Black Mirror e da própria La Casa de Papel que passará a ser produzida pela Netflix a partir de agora. Já a outra metade deverá ser destinada à compra de direitos de transmissão de filmes e séries produzidos por terceiros, a exemplo do que já foi feito com Breaking Bad , Grey`s Anatomy , The Office , Criminal Minds , entre outros.

Mas apesar da Netflix priorizar tanto seu conteúdo original, a ponto de colocá-lo em evidência na plataforma, fazer extensas campanhas de divulgação nos meios digital e físico e ainda comprar brigas com um dos principais festivais do mundo só para garantir a exclusividade do lançamento de suas produções, adivinhe sobre qual metade está concentrada a grande maioria da audiência e do interesse de seus assinantes? Sim: no conteúdo licenciado!

De acordo com uma análise feita pela 7Park Data, uma empresa especializada no rastreamento de dados de plataformas de streaming, 80% da audiência americana da Netflix ainda está mais interessada no conteúdo de terceiros presente no aplicativo do que nas propagandeadas produções originais da empresa.

Os dados são referentes ao período de 12 meses encerrado em setembro de 2017 e é bem verdade que os 20% dessa medição são maiores do que os 12% medidos até setembro de 2016, mas diante de tanto investimento na produção e divulgação de novos produtos originais, não é difícil arriscar dizer que a empresa esperava muito mais.

Inegavelmente, a conclusão serve de alento para a parcela da indústria que teme o Netflix. Se séries como as citadas  Breaking Bad e Grey’s Anatomy ainda ficaram no topo das opções mais assistidas dentro da plataforma de streaming, é impossível não concluir que as pessoas ainda estão interessadas naquilo que vêem primeiro no cinema e na TV. Portanto, negociar os direitos de transmissão com a Netflix passa a ser uma opção e não uma condição de sobrevivência dessas outras produtoras.

Breaking Bad, lançada em 2008 pela AMC, ainda é uma das líderes de audiência da Netflix nos EUA
Reprodução
Breaking Bad, lançada em 2008 pela AMC, ainda é uma das líderes de audiência da Netflix nos EUA


O analista sênior da própria 7Park Data, Christopher Coby, garante: "o conteúdo licenciado é o mecanismo de engajamento que impulsiona a audiência, a retenção e a receita das plataforma de vídeo on demmand ". Ele revela que, apesar da estratégia declarada da Netflix, mesmo para obter novos clientes, os conteúdos licenciados ainda são mais interessantes: 58% dos novos usuários da Netflix no período analisado assistiram primeiro a conteúdos licenciados do que originais.

A tendência é tão forte que mesmo quando a plataforma lançou seus produtos mais valorizados como a primeira temporada de Stranger Things e a terceira temporada de Black Mirror (a primeira original da Netflix), o acesso dos produtos licenciados continou sendo maior: 63% a 34%, sete dias após a estreia do primeiro e 88% a 12% na semana seguinte a estreia do segundo.

Somando tudo isso parece que o crescimento da Netflix e de suas concorrentes não se deve, portanto, ao interesse por seus lançamentos tão propagandeados e sim à praticidade e à comodidade que a tecnologia envolvida oferece. Além da chance de poder rever quando e quantas vezes quiser os filmes e séries favoritos, as plataformas de streaming oferecem ao usuário a possibilidade de pagar uma quantia fixa para assistir às produções numa qualidade boa e sem interrupção de comerciais.

O exemplo de serviços de outros nichos não nos deixa mentir. Spotify, AppleMusic, Deezer, Tidal não param de crescer na indústria musical. Da mesma forma, voltando ao audivisual, Hulu, AmazonPrime e Apple Prime Video também estão em crescimento e parecem dispostos a fazer frente a líder do mercado.

Dessa forma, é possível prever dificuldades para a empresa em ramos e lugares onde a Netflix pode esbarrar com outras gigantes da indústria audiovisual que estão planejando lançar seus próprios serviços de streaming.

Um exemplo de entrave regional para isso seria o caso brasileiro onde o grupo GloboSat ainda preserva uma liderança disparada das produções audiovisuais nacionais e já está engatinhando no seu serviço por assinatura para a internet. Já um exemplo de entrave temático seria a da antecipada intenção da Disney de também lançar sua plataforma própria, o que poderia roubar boa parte da audiência infantil e também dos fãs de histórias de heróis, uma vez que o estúdio também é dono da Marvel.

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Pensando por esse lado, não é de se espantar que a Netflix não tire o pé do acelerador e busque a todo custo chegar antes e se consolidar nesses territórios. A corrida mundial pela sua audiência já foi lançada.

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