Meta revela alguns detalhes sobre como lida com questões ligadas aos direitos humanos
Unsplash/Dima Solomin
Meta revela alguns detalhes sobre como lida com questões ligadas aos direitos humanos

A Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp, divulgou nesta quinta-feira (14) seu primeiro relatório sobre direitos humanos. O documento, que agora deve ser publicado anualmente, vem após anos de acusações de que a empresa não teria dado a devida atenção a casos de violência no mundo real estimulados por discurso de ódio que circula em suas plataformas.

"A Meta foi muito criticado ao longo dos anos justamente por não ter essa transparência a respeito da promoção e proteção de direitos humanos, então eu encaro um relatório como esse como um passo positivo", afirma João Victor Archegas, mestre em Direito por Harvard e pesquisador no Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio.

Casos bastante marcantes, como os da Índia e de  Mianmar , aparecem no relatório, que resume como a Meta lidou com os casos de disseminação de discurso de ódio nos países.

Eleições e direitos humanos

O documento, que abrange os anos de 2020 e 2021, cita ainda eleições a respeito das quais a empresa tomou medidas específicas para garantir a integridade eleitoral. O relatório cita as eleições dos Estados Unidos e de Mianmar em 2020, além da preparação para as eleições presidenciais das Filipinas de 2022.

"Em países identificados (e eleições prioritárias), tomamos um cuidado personalizado, mitigamos riscos, agimos rapidamente para iniciar o processo para remover conteúdo que viole nossas políticas e tomamos medidas de proteção, incluindo a implantação de suporte específico no país. Desde 2018, este trabalho tem sido liderado por equipes com experiência em direitos, discurso de ódio, proteção de mulheres e crianças, desinformação e polarização. Muitos viveram ou trabalharam em países de alto risco e falam idiomas relevantes", diz um trecho do relatório.

Em 83 páginas de documento, o Brasil não é citado. Nem as eleições municipais de 2020 nem as presidenciais deste ano aparecem no relatório da Meta. Além disso, a empresa afirma que, no ano passado, contratou moderadores de conteúdo em 12 novos idiomas, mas nenhum esforço específico em melhorar a moderação de conteúdo em português é citado pela companhia.

Archegas afirma que entende a escolha da empresa de não citar o país. Em, 2020, nossas eleições foram locais, tendo menos impacto global que as outras citadas. Já as eleições brasileiras deste ano ainda não aconteceram, diferentemente do processo nas Filipinas, que ocorreu em maio.

"Acho que é mais uma questão de escolha metodológica mesmo. É um relatório mais qualitativo do que quantitativo, e eles fizeram algumas escolhas para mostrar boas práticas e o que a empresa vem implementando nesse cenário de proteção e promoção dos direitos humanos ao redor do globo", analisa.

Apesar disso, o pesquisador afirma que a ausência do Brasil no relatório causa uma certa estranheza. "Para nós, brasileiros, isso acaba ficando um pouco estranho, até porque a gente está vivendo um momento de muito conflito político e a Meta tem um papel muito importante a desempenhar aqui no nosso contexto nacional. Certamente, é de se surpreender, mas eu acho que eu entendo a escolha metodológica que foi feita pela pela empresa nesse caso", comenta Archegas.

Em visita ao Brasil na última semana , Frances Haugen, ex-funcionária e delatora do Facebook, responsável por vazar os  Facebook Papers no ano passado, disse que a Meta não dá a devida atenção as eleições do país. "O Brasil merece o mesmo nível de investimento que houve nos Estados Unidos, ou ainda maior, já que o processo eleitoral brasileiro depende muito mais dos aplicativos da empresa do que o norte-americano", argumentou ela, em audiência pública na Câmara dos Deputados, lembrando da importância do WhatsApp no contexto eleitoral do Brasil.

** Dimítria Coutinho atua cobrindo tecnologia há cinco anos, se dedicando também a assuntos econômicos. Antes de trabalhar no iG, era repórter do Ada, um portal de tecnologia voltado para o público feminino. É jornalista formada pela Universidade de São Paulo com passagem pelo Instituto Politécnico de Lisboa.

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