
A promessa parece simples: fazer uma compra e receber o produto em casa em cerca de 30 minutos. Em Richardson, no Texas, porém, a expansão das entregas por drones da Amazon tem criado uma experiência bem diferente para quem vive sob as rotas dos equipamentos.
A cidade, um subúrbio da região de Dallas, recebe testes do serviço Prime Air ao longo de 2026. Moradores relatam voos frequentes sobre casas e quintais, além de um zumbido que, em alguns casos, pode ser ouvido dentro do imóvel.
A frequência virou um dos principais pontos de reclamação. Segundo relatos reunidos pelo The New York Times, dezenas de drones podem passar sobre uma mesma residência em um único dia. Uma moradora contou ter registrado 52 voos em uma sexta-feira, considerada por ela um dia tranquilo.
Entregas em até 30 minutos
Os drones usados pela Amazon têm cerca de 37 quilos e podem transportar encomendas de até 2,3 quilos. O alcance informado é de aproximadamente 12 quilômetros a partir do centro de distribuição.
A empresa afirma que os equipamentos voam, em média, a 68 metros de altura. Segundo as informações apresentadas sobre a operação, as entregas podem ocorrer entre 7h e 20h. A regulamentação da FAA, agência que controla a aviação civil nos Estados Unidos, estabelece limite de 122 metros para esse tipo de voo.
Ao chegar ao destino, o drone desce até poucos metros do chão, paira sobre a propriedade e libera o pacote. A proposta é reduzir o tempo entre o pedido e a entrega sem depender exclusivamente da circulação de veículos pelas ruas.
Mas a conta da conveniência não é percebida da mesma forma por todos.
O barulho virou parte da rotina
A Amazon afirma que menos de 1% das reclamações registradas neste ano sobre o Prime Air estão relacionadas ao ruído. A empresa também compara o som produzido pelos drones ao de um ventilador de janela funcionando em baixa velocidade.
O problema apontado pelos moradores é a quantidade. Um único equipamento pode produzir um ruído relativamente baixo, mas a repetição dos voos ao longo do dia muda a experiência de quem está embaixo das rotas.
O teste de Richardson, por isso, ganha importância para o debate sobre entregas autônomas. A tecnologia pode funcionar do ponto de vista logístico, mas sua presença também altera a paisagem sonora de uma vizinhança.
E as câmeras?
O ruído não é a única preocupação. Os drones utilizam câmeras e sensores para navegar, o que levantou questionamentos sobre privacidade entre moradores.
A Amazon afirma que as imagens ficam armazenadas em unidades criptografadas, com acesso restrito a funcionários autorizados, e são utilizadas para melhorar a segurança e o atendimento ao cliente.
Ainda assim, a possibilidade de equipamentos com câmeras sobrevoarem quintais residenciais acrescenta outra camada à discussão. A dúvida deixa de ser apenas sobre por qual espaço o drone pode voar e passa também por quais imagens podem ser captadas durante esse percurso.
Quando o drone erra a rota
Também há relatos de problemas durante as entregas. Entre os casos citados estão um drone que deixou uma encomenda cair em uma piscina e outro que atingiu um prédio de apartamentos antes de cair próximo a uma calçada.
A Amazon afirma que o programa passa por aprimoramentos e que as operações podem ser ajustadas a partir das reclamações recebidas.
Mesmo com os questionamentos, a empresa segue ampliando o projeto. A Amazon anunciou planos de levar o Prime Air para 500 cidades até o fim de 2026. A FAA, por sua vez, estima que o número de drones registrados nos Estados Unidos possa superar 3,5 milhões até 2030.
Richardson acaba funcionando como uma espécie de laboratório a céu aberto. O que acontece ali mostra que colocar encomendas no ar envolve mais do que desenvolver drones capazes de navegar e entregar pacotes.
Também é preciso definir como esses equipamentos convivem com quem não fez o pedido, não escolheu a rota e simplesmente está em casa quando eles passam.