Compras online aumentam no período da Black Friday
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Compras online aumentam no período da Black Friday

Aquela mensagem cheia de erros de português que parecia suspeita ficou para trás. Com a ajuda da inteligência artificial (IA), criminosos conseguem criar textos bem escritos, copiar a identidade visual de lojas conhecidas e personalizar abordagens para convencer consumidores a clicar em links ou realizar pagamentos. Na Black Friday, quando a busca por descontos aumenta, essas táticas ganham um terreno favorável.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados divulgados pela Agência Brasil, golpes de engenharia social representaram 40% dos indícios de fraudes financeiras registrados no país no primeiro semestre de 2026. Foram mais de 9 milhões de ocorrências suspeitas ou confirmadas no período, das quais mais de 3,6 milhões estavam relacionadas a esse tipo de prática.

A engenharia social consiste em manipular a vítima para que ela própria forneça informações, clique em um link malicioso ou transfira dinheiro. Em vez de depender apenas de falhas técnicas, o criminoso explora emoções e comportamentos como pressa, confiança e medo de perder uma oportunidade.

"A Black Friday trabalha naturalmente com escassez e urgência: 'últimas unidades', 'somente pelos próximos minutos', '70% de desconto apenas agora'. O criminoso utiliza exatamente esses gatilhos para fazer a vítima agir antes de pensar", explica Vinicius Ferreira, CEO da T2Sec, empresa especializada em segurança da informação.

Como a IA facilita os golpes

A IA generativa ampliou as possibilidades de criação de fraudes digitais. Com essas ferramentas, criminosos podem produzir mensagens convincentes, traduzir textos, adaptar abordagens com informações disponíveis publicamente e criar imagens, vozes e vídeos sintéticos.

O resultado é uma comunicação que pode imitar o padrão de uma empresa conhecida ou parecer ter sido enviada por alguém de confiança. Isso não significa que todo anúncio bem produzido seja falso, mas torna a aparência uma referência cada vez menos confiável para avaliar a legitimidade de uma oferta.

"O antigo conselho de simplesmente 'procurar erros de português' perdeu bastante força. Um phishing criado com IA pode ter escrita impecável, utilizar o nome da vítima, mencionar uma empresa com a qual ela realmente mantém relacionamento e reproduzir o estilo de comunicação de uma pessoa ou organização conhecida", alerta Ferreira.

O phishing é uma das técnicas usadas nesse tipo de fraude. O consumidor recebe uma mensagem por WhatsApp, SMS, e-mail ou rede social e é direcionado a uma página falsa, que pode imitar uma loja legítima. Ali, informa dados pessoais, credenciais ou dados de pagamento, ou conclui uma compra que nunca será entregue.

A IA também pode reduzir o esforço necessário para produzir diferentes versões de uma mesma fraude. Uma mensagem genérica pode dar lugar a abordagens adaptadas a públicos específicos, com linguagem e referências que aumentam a sensação de familiaridade.

Cinco sinais para observar antes de comprar

A boa notícia é que não é necessário dominar tecnologia para reduzir os riscos. O cuidado está em conferir informações que vão além da aparência do anúncio.

1. Confira o endereço do site

Antes de informar dados ou concluir uma compra, observe o domínio da página. Criminosos podem usar endereços muito parecidos com os de lojas conhecidas, com pequenas alterações de letras ou palavras adicionais.

Evite acessar ofertas por links recebidos em mensagens. Se encontrar uma promoção nas r edes sociais, procure a loja pelo aplicativo oficial ou digite o endereço conhecido diretamente no navegador.

2. Desconfie de descontos muito fora da realidade

Compare o preço com o praticado por outras lojas e consulte o histórico da oferta, quando possível. Uma diferença muito grande pode ser um sinal de alerta, principalmente quando vem acompanhada de uma contagem regressiva ou de mensagens insistentes para finalizar a compra.

A urgência não comprova uma fraude, mas é um recurso frequente para impedir que a vítima pare e confira os dados.

3. Não confie apenas no cadeado do navegador

O HTTPS indica que a conexão entre o navegador e o site é criptografada. Isso ajuda a proteger a comunicação, mas não comprova que a empresa por trás da página seja legítima. Sites fraudulentos também podem usar esse recurso.

Por isso, confira o endereço completo e procure informações da empresa, como CNPJ, canais oficiais de atendimento e políticas de troca e devolução.

4. Confira quem vai receber o Pix

Antes de confirmar uma transferência, verifique o nome e os dados do beneficiário exibidos pelo aplicativo bancário. Se o pagamento for destinado a uma pessoa ou empresa diferente daquela que deveria receber, interrompa a operação e confirme a informação pelos canais oficiais da loja.

Também desconfie de supostos atendentes que enviam uma nova chave Pix ou um QR Code por WhatsApp, alegando problemas na transação ou oferecendo um desconto extra.

5. Não tome decisões sob pressão

Mensagens que exigem pagamento imediato, ameaçam cancelar um pedido ou prometem uma condição exclusiva por poucos minutos merecem atenção. Se tiver dúvidas, interrompa a conversa e procure a empresa por um canal oficial.

A mesma cautela vale para perfis de redes sociais e anúncios patrocinados. A presença de uma oferta em uma plataforma conhecida não garante, por si só, que o vendedor seja confiável.

Recebeu um Pix por engano? Não transfira de volta

Outro golpe exige atenção especial durante o período de compras. Nele, alguém afirma ter enviado dinheiro por engano e pede que a vítima devolva o valor para uma conta diferente daquela de origem.

A orientação é não fazer uma nova transferência. Se o dinheiro realmente tiver sido recebido indevidamente, utilize a função de devolução da própria transação no aplicativo bancário, que permite encaminhar o valor de volta à conta de origem. Em caso de dúvida, entre em contato com o banco.

A regra também vale para mensagens de supostos vendedores ou atendentes que pedem pagamentos fora do fluxo normal da compra.

Caiu em um golpe? Aja rapidamente

Se perceber que realizou um pagamento fraudulento ou forneceu dados a uma página suspeita, entre em contato imediatamente com o banco ou a instituição financeira e informe o ocorrido. No caso do Pix, peça a análise da transação e verifique a possibilidade de acionar o Mecanismo Especial de Devolução (MED), conforme as regras aplicáveis. A recuperação do dinheiro não é garantida.

Também é importante guardar comprovantes, capturas de tela, links e conversas, registrar um boletim de ocorrência e trocar senhas que possam ter sido expostas. Se houver risco de acesso indevido às contas, ative a autenticação em dois fatores e encerre sessões desconhecidas.


Ferreira ainda alerta para uma segunda armadilha: o golpe da falsa recuperação. Depois da primeira fraude, criminosos podem entrar em contato se passando por funcionários de bancos ou especialistas e cobrar uma taxa para devolver o dinheiro perdido.

A Black Friday não precisa se transformar em motivo para evitar compras online. O cuidado é não confundir uma oferta convincente com uma oferta legítima.

Com a inteligência artificial tornando as fraudes mais sofisticadas, verificar o endereço, comparar preços e conferir o beneficiário do pagamento são atitudes que valem mais do que tentar descobrir um golpe apenas pela aparência.

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