Rede social é gerenciada pela Tencent, gigante da internet chinesa

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Xangai – A cada meia hora, mais ou menos, Jenny Zhao, jovem e antenada, destrava o iPhone 5 para se conectar com os amigos que usam o Weixin, o aplicativo de mensagens mais popular da China.

"Passo ao menos seis horas ao dia no Weixin", afirmou Zhao, de 24 anos, que vende cosméticos em Xangai. "Muito do que eu faço gira em torno disso".

Weixin é o aplicativo com maior número de usuários no país, uma rede social altamente viciante que permite que os usuários de smartphones enviem mensagens ou compartilhem notícias, fotos, vídeos e links, basicamente o que o WhatsApp faz nos EUA e o Line, no Japão. Nos Estados Unidos, existe uma versão do Weixin conhecida como WeChat.

Allen Zhang liderou a equipe que criou o Weixin, em 2010
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Allen Zhang liderou a equipe que criou o Weixin, em 2010

Apenas três anos depois de ter sido introduzido na China, o Weixin já possui quase 300 milhões de usuários – uma taxa de adoção mais rápida que a do Facebook e do Twitter – o que dá ao aplicativo uma posição dominante no maior mercado de smartphones do mundo. Ele já interrompeu o crescimento do serviço de mensagens da maior empresa de telefonia móvel do país e levou as maiores empresas de internet da China a criarem serviços de mensagem para concorrer com o Weixin.

Porém, na bagunça chinesa, uma empresa líder em mídias sociais não leva vantagem. Analistas afirmam que o crescimento fenomenal do Weixin praticamente acaba com as chances de que o Facebook se torne o líder de mercado no país.

Facebook e Youtube bloqueados

Em 2009, o governo chinês bloqueou o acesso ao Facebook no país sem dar qualquer explicação. O Twitter e o YouTube também são bloqueados na China.

Desde então, o Facebook indicou que pode tentar voltar ao mercado, talvez por meio de uma parceria com alguma empresa local. No entanto, o sucesso do Weixin dificulta muito esse processo.

"Mesmo que o Facebook tivesse permissão, provavelmente já é tarde demais", afirmou Wang Xiaofeng, analista de tecnologia da Forrester Research. "O Weixin tem todas as funcionalidades do Facebook e do Twitter, e os chineses já se acostumaram a ele".

Tencent domina mercado chinês

O Weixin é uma criação da Tencent, a gigante chinesa da internet, famosa pelo serviço de mensagens instantâneas QQ e por seus populares jogos online. A Tencent, que tem o capital aberto e está avaliada em mais de 100 bilhões de dólares na bolsa de valores de Hong Kong, procura fortalecer sua posição nas redes sociais e expandir para novas áreas, tais como pagamentos online e e-commerce.

O Alibaba, o gigante do e-commerce na China, anunciou planos para contra-atacar, com seu novo aplicativo de mensagens, chamado Laiwang.

Enquanto isso, a Tencent, está tão confiante em seu aplicativo que começou a promover o Weixin em outros países, especialmente no sudeste asiático, onde vivem dezenas de milhões de usuários. A empresa também planeja campanhas de marketing na Europa e na América Latina, utilizando o nome WeChat. A empresa se negou a dizer se planeja promover o aplicativo nos EUA.

O Weixin poderia ajudar a mudar a percepção global das empresas chinesas. Embora as empresas chinesas da internet ainda sejam consideradas cópias do Google, do Facebook, do Twitter e do eBay, analistas afirmam que elas estão se transformando rapidamente em empresas de tecnologia dinâmicas e inovadoras com modelos de negócio exclusivos.

Weixin mistura Facebook e Instagram

O Weixin, por exemplo, não é uma mera cópia de um serviço que já existe, mas um amálgama de diversas ferramentas de redes sociais: um pouco Facebook, um pouco Instagram e até um pouco walkie-talkie. Ao invés de enviar uma mensagem rápida com ideogramas chineses, algo que pode demorar mais que o desejado, os usuários podem simplesmente apertar um botão e enviar uma mensagem de voz.

"As empresas chinesas da internet não estão mais atrasadas", afirmou William Bao Bean, antigo analista de tecnologia, que agora trabalha como diretor executivo da empresa de capital de risco SingTel Innov8. "Agora, em algumas áreas, elas estão abrindo novos caminhos".

A capacidade de transformação desses serviços é inegável. O Weixin interrompeu o crescimento do serviço de microblogging mais famoso do país, o Sina Weibo, e acabou com a lucratividade de um serviço oferecido pelas grandes operadoras estatais de telecomunicação da China: as mensagens de texto curtas conhecidas como SMS.

Na China Mobile, a maior operadora de celulares da China, o faturamento gerado pelos SMS chegou ao auge em 2009, com quase 9 bilhões de dólares. Três anos depois, o faturamento era de apenas 20 por cento desse total e a tendência é uma queda ainda maior no ano seguinte, de acordo com estimativas recentes.

Os analistas dizem que mudanças nas tecnologias frequentemente matam empresas que demoram a reagir. Entretanto, a ameaça da extinção também pode inspirar as empresas a se reinventarem, ou a saírem em busca da últimas tendências.

Foi isso que aconteceu com a Tencent, que cresceu a uma velocidade vertiginosa durante boa parte da última década. Temendo o desenvolvimento de uma tecnologia que pudesse colocar em risco esse sucesso, os executivos da Tencent afirmam que encorajaram os desenvolvedores de software e gerentes de produtos da empresa a saírem em busca de novas ideias.

Desenvolvimento levou três meses

No fim de 2010, Allen Zhang, diretor do centro de pesquisa e desenvolvimento da Tencent em Guangzhou, organizou uma equipe de 10 desenvolvedores para trabalhar em um aplicativo de mensagem para smartphones. Ele foi inspirado pelo Kik, que ele temia poder ameaçar o espaço do programa de mensagens instantâneas para computador da Tencent, o QQ.

Três meses depois, a Tencent lançou o Weixin. Com uma interface elegante e fácil de usar, o aplicativo de mensagem atraiu 50 milhões de usuários em um ano e, ao longo dos dois anos seguintes, quase 300 milhões de usuários em todo o planeta.

Segundos especialistas em tecnologia, o Weixin tem o que todos os executivos de internet sonham: presença. Embora a Tencent não registre o tempo que os usuários gastam no serviço, analistas creem que seja muito mais do que outros importantes serviços de blogs e mídias sociais.

Os analistas também afirmam que a Tencent também tem uma boa oportunidade de ganhar dinheiro com o serviço gratuito. Ao introduzir jogos móveis gratuitos – com itens virtuais que podem ser comprados – e um método de pagamento que possa ser utilizado tanto online, quanto off-line, o Weixin poderá se transformar em pouco tempo em um negócio lucrativo, com pouca ou nenhuma propaganda.

A empresa está começando a testar o uso do Weixin como uma ferramenta para chamar taxis, fazer reservas em hotéis e voos e até mesmo controlar aparelhos de televisão e utilidades domésticas.

Mobilidade é vantagem do Weixin

Em agosto, um analista de tecnologia da Barclays previu que o Weixin poderia ter 400 milhões de usuários e uma receita de quase 500 milhões de dólares este ano. Com investidores antecipando um crescimento dessas proporções, as ações da Tencent aumentaram 94 por cento no ano passado.

Alguns executivos da Tencent veem o Weixin como salvador da empresa. No ano passado, o CEO e fundador da Tencent, Ma Huateng – conhecido em inglês como Pony Ma – afirmou durante um discursos que o poder da Weixin era sua mobilidade, como um "órgão portátil" que, ao contrário de um PC, sempre acompanha o usuário.

Se o Weixin tivesse sido criado por outra empresa, continuou Ma, a Tencent talvez tivesse entrado em declínio. "Em retrospectiva, aqueles dois meses foram uma questão de vida ou morte para a empresa".

Alibaba é principal rival

É claro que existem desafios. Um deles, segundo os analistas, é que as pessoas apaixonadas por tecnologia na China são instáveis, e podem mudar rapidamente para outro serviço de mensagens. Outro desafio a ser enfrentado é seu principal concorrente, o Alibaba, a empresa chinesa de e-commerce que praticamente declarou guerra ao Weixin.

Em agosto, o Alibaba proibiu os fornecedores do site de compras Taobao.com de divulgarem seus produtos no Weixin. Em seguida, o Alibaba introduziu seu serviço concorrente, o Laiwang, e anunciou planos para criar uma plataforma de jogos online.

Os planos de expansão da Tencent em outros países também podem ser afetados pelos temores gerados pelo posse de muitos dados pessoais por parte da empresa, que pode ser forçada a transferi-los para as autoridades chinesas, que controlam com pulso firme os serviços online no país.

Os executivos da Tencent insistem que os riscos de espionagem são pequenos, já que a empresa não armazena as mensagens em seus servidores.

Por enquanto, os consumidores chineses estão indo em peso para o Weixin, e grudando no aplicativo feito cola. No trabalho, nos metrôs, restaurantes, é possível ouvir o barulho cada vez mais comum que avisa da chegada de uma nova mensagem no Weixin.

"Eu uso o Weixin todos os dias", afirmou Zhang Shoufeng, de 29 anos, vendedora de alimentos e bebidas, enquanto relaxava no restaurante de um shopping center, certa noite. "Meus amigos e até meu chefe estão nele. Falamos sobre onde comer, aonde ir, ou onde realizar as reuniões da empresa. É assim que nos comunicamos".

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