Tamanho do texto

No Brasil, segundo estudo da Universidade de Oxford, empresas privadas e partidos políticos foram os maiores influenciadores das discussões on-line

Alguns casos de manipulação nas redes sociais são mais notórios, como o pleito norte-americano de 2016, que elegeu Donald Trump como presidente dos Estados Unidos
Shutterstock
Alguns casos de manipulação nas redes sociais são mais notórios, como o pleito norte-americano de 2016, que elegeu Donald Trump como presidente dos Estados Unidos

Entre 2010 e 2018, as eleições de pelo menos 48 países foram afetadas por campanhas que influenciaram os cidadãos em polêmicas políticas e manipularam o debate público nas redes sociais. É o que mostra o relatório divulgado no último dia 20 pelo Instituto de Internet da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

Leia também: Facebook deleta contas suspeitas de interferirem em eleições nos Estados Unidos

Segundo o estudo, países de todos os continentes sofreram com as chamadas “tropas cibernéticas” (ou cybertroops, no termo em inglês) nas redes sociais . Alguns casos são mais notórios, como o pleito norte-americano de 2016, que elegeu Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, e o referendo do Brexit no Reino Unido, também ocorrido naquele ano.

Os pesquisadores também mapearam a manipulação de acordo com as organizações responsáveis por praticá-la. No caso do Brasil, as empresas privadas (três ou mais) e políticos e partidos (dois) foram os maiores influenciadores do debate público nas redes sociais durante as eleições de 2010, período analisado pela universidade.

As agências do governo, organizações civis e os próprios cidadãos também foram considerados responsáveis diretos pela manipulação das discussões ocorridas na internet. Nas Filipinas em 2016 e nos EUA em 2008, houve influência de todos esses atores definidos pela pesquisa - os únicos dos 48 países analisados em que isso aconteceu.

Estratégias de manipulação

Uma das técnicas de manipulação identificadas é o uso de “trolls” para atingir pessoas, comunidades ou organizações específicas com discursos de ódio nas redes sociais
Shutterstock
Uma das técnicas de manipulação identificadas é o uso de “trolls” para atingir pessoas, comunidades ou organizações específicas com discursos de ódio nas redes sociais

De acordo com o relatório, as tropas cibernéticas utilizam uma variedade de técnicas para espalhar suas mensagens e conduzir o debate na internet. Uma dessas estratégias é o uso massivo de “comentaristas” que se engajam ativamente em conversas e discussões com usuários verdadeiros.

Estes comentaristas atuam em diversas plataformas diferentes, incluindo blogs, sites de notícias e, claro, redes sociais. Segundo a universidade britânica, há evidências de que os governos e partidos políticos usam essa ferramenta para manipular o debate na internet de três maneiras: espalhar propagandas favoráveis a seus pares; atacar e difamar a oposição; desviar o foco das discussões para assuntos menos relevantes.

Leia também: Facebook exclui páginas que espalhavam fake news na rede; MBL reclama de censura

A segunda estratégia identificada pela pesquisa é o uso de “ trolls ” para atingir pessoas, comunidades ou organizações específicas com discursos de ódio ou outras formas de assédio on-line. Essas mensagens direcionadas, segundo o relatório, são utilizadas para perseguir minorias não só no contexto das eleições, mas também como uma ferramenta de controle em regimes autoritários.

A universidade encontrou relatos de campanhas de trolling que visavam dissidentes políticos, membros da oposição ou jornalistas em 27 dos 48 países da amostragem.

Além disso, o estudo concluiu que a atuação dessas tropas cibernéticas normalmente se dá por meio de contas falsas nas redes sociais. Esses perfis também são usados para criar, disseminar e compartilhar notícias falsas (as famosas fake news ) em pelo menos 46 dos 48 países monitorados pelos britânicos.

Bots e perfis falsos

Os bots podem manipular o debate político nas redes sociais de diversas maneiras, seja divulgando fake news durante as eleições ou fabricando uma falsa sensação de popularidade de um candidato
Reprodução/YouTube
Os bots podem manipular o debate político nas redes sociais de diversas maneiras, seja divulgando fake news durante as eleições ou fabricando uma falsa sensação de popularidade de um candidato

Contas automatizadas - também chamadas de bots , referência a robots (robôs) - são basicamente softwares ou códigos desenvolvidos para copiar o comportamento de um ser humano nas redes sociais. Elas podem manipular o debate político de diversas maneiras, seja divulgando fake news durante as eleições ou fabricando uma falsa sensação de popularidade de um candidato ou ideia específico.

Um bot é um perfil falso - mas um perfil falso nem sempre é um bot . Em muitos casos, segundo o estudo, pessoas reais mantêm contas falsas em redes sociais para atingir objetivos de manipulação similares, normalmente idealizados por equipes que gerenciam uma série de outros perfis.

Leia também: Facebook admite que vai passar a apagar fake news da rede social

A universidade também identificou evidências de contas “ciborgue”, isto é, que combinam a automação dos bots com elementos da atividade humana. Esses perfis unem a capacidade de produção e compartilhamento de conteúdo de um robô com as características de uma pessoa comum, e, desta forma, acabam parecendo mais legítimos aos olhos dos demais usuários.

Essas contas híbridas são mais difíceis de detectar e, consequentemente, de excluir, já que imitam muito bem o comportamento de um ser humano comum. A pesquisa encontrou provas explícitas da utilização desses ciborgues em apenas 9 países, incluindo o Brasil, mas os responsáveis suspeitam de que essa atividade seja muito mais incisiva na prática.

Nos 46 países da amostra que operam contas falsas, os bots se mostraram o tipo mais comum. Muito da atividade desses perfis é restrito a plataformas que facilitam a automação, como o Twitter , por exemplo.

Segundo a pesquisa, 38 países usam sistemas automatizados para gerar conteúdo e interagir com usuários verdadeiros. Em 33 lugares, governos e partidos políticos utilizaram contas falsas operadas por pessoas reais para manipular discussões na internet. O relatório ainda completa: “em países onde a atividade de perfis falsos é alta, podemos dizer com segurança que tanto os robôs quanto os seres humanos geram desinformação”.

Manipular custa caro

Em muitos países, há evidências de que o próprio governo direciona fundos específicos para conduzir guerras de informação contra adversários estrangeiros e até mesmo nacionais nas redes sociais
Shutterstock
Em muitos países, há evidências de que o próprio governo direciona fundos específicos para conduzir guerras de informação contra adversários estrangeiros e até mesmo nacionais nas redes sociais

Embora as informações sobre o tamanho da operação das tropas cibernéticas sejam limitadas, a pesquisa da Universidade de Oxford traz uma estimativa de quanto essa prática custa e como os envolvidos cooperam entre si.

Manter essas tropas cibernéticas demanda um alto investimento. Em muitos países, segundo o relatório, há evidências de que o próprio governo direciona fundos específicos para conduzir guerras de informação contra adversários estrangeiros e até mesmo nacionais nas redes sociais.

Leia também: Zuckerberg pede desculpas ao Congresso americano e anuncia mudanças no Facebook

Um número crescente de partidos políticos está contratando empresas de relações públicas e análise de dados para espalhar desinformação, lançar bots e iniciar campanhas de trolling . A prática, de acordo com os pesquisadores, é cada vez mais comum tanto nas democracias mais consolidadas quanto nas emergentes.

Em termos de tamanho, as tropas cibernéticas variam. Em alguns casos, as equipes são muito pequenas e empregam apenas algumas pessoas para propagar mensagens nas redes sociais por um curto período de tempo - durante as campanhas eleitorais, por exemplo. Outras são empresas maiores, que mantêm centenas ou até milhares de “funcionários” dedicados a manipular informações.

O Brasil, segundo o estudo, faz parte do grupo de países que tem tropas cibernéticas de capacidade média. Estas possuem forma e estratégias muito mais consistentes, que envolvem pessoas em tempo integral e durante o ano todo, e utilizam uma variedade maior de técnicas de manipulação. Cuba, Equador, Malásia, México, Irã, Coreia do Norte, Filipinas, Arábia Saudita, Sérvia, Síria, Turquia, Ucrânia, Reino Unido, Venezuela e Vietnã completam a lista.

De acordo com a universidade, o Brasil mantém uma tropa cibernética permanente de cerca de 60 pessoas. Quanto aos investimentos, foram verificados contratos múltiplos de R$ 24 mil, R$ 130 mil e até R$ 10 milhões.

O papel das redes sociais

Com a possibilidade de segmentar o público-alvo e direcionar mensagens de forma rápida, barata e pouco fiscalizada, as redes sociais atraíram o interesse dos operadores políticos
Divulgação/Facebook
Com a possibilidade de segmentar o público-alvo e direcionar mensagens de forma rápida, barata e pouco fiscalizada, as redes sociais atraíram o interesse dos operadores políticos

Nos EUA, segundo Oxford, 85% da população adulta usa a internet regularmente e 80% dessas pessoas estão no Facebook . Na maior parte do tempo, as redes sociais não são utilizadas para fins políticos, mas sim para interação com amigos e familiares e compartilhamento de cultura popular e vídeos bem-humorados.

O problema é que, com a possibilidade de segmentar o público-alvo e direcionar mensagens de forma rápida, barata e pouco fiscalizada, essas plataformas atraíram o interesse dos operadores políticos.

Leia também: Facebook vai avisar quando anúncio na rede social for propaganda eleitoral

“Infelizmente, há evidências crescentes de que as redes sociais estão sendo utilizadas para manipular e enganar os eleitores”, conclui o relatório. “Precisamos desenvolver leis mais severas para o uso de mídias sociais, big data e novas tecnologias da informação durante as eleições. Proteger nossas democracias agora significa estabelecer regras de flair play antes das votações, e não depois”.

    Leia tudo sobre: facebook