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Arquivo pessoal
Ubiratan criou as luvas biônicas do maestro João Carlos Martins


O designer industrial Ubiratan Bizarro Costa estava assistindo a um programa de televisão quando viu o maestro João Carlos Martins se despedir dos pianos, em fevereiro do ano passado. Depois de 23 cirurgias nas mãos, o maestro tinha decidido fazer mais uma que acabaria com suas dores, mas o impediria de tocar piano novamente. 

Do lado de lá da tela, Ubiratan tomou uma decisão. “Eu vou tentar fazer alguma coisa para ajudar”, pensou. Ele já atuava na área do design inclusivo , criando produtos para dar movimentos a pessoas com mobilidade reduzida, aumentando a acessibilidade. No dia seguinte, começou os rascunhos do que viria a ser um par de luvas que devolveria a João Carlos Martins a possibilidade de tocar piano. 

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E isso de fato aconteceu. No Natal, Ubiratan conseguiu presentear o ídolo com as luvas extensoras , que prende hastes sobre os quatros dedos das mãos, funcionando como molas que puxam os dedos de volta a cada pressão sobre as teclas do piano. “As luvas mantêm as mãos o mais abertas possível, que é o que precisa no caso dele”, explica Ubiratan.  


Tecnologia em prol da acessibilidade

As luvas feitas para o maestro tocar piano não saem mais de suas mãos, conta o designer orgulhoso. “Funcionou muito acima do que eu esperava. Foi além das expectativas, e isso é maravilhoso para mim”, diz Ubiratan. 

Além das luvas, ele também já desenvolveu um exoesqueleto para auxiliar deficientes físicos a caminharem e uma scooter  que permite que pessoas com limitações nos movimentos das pernas possam ficar em pé. 

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E Ubiratan é só um dentre os diversos desenvolvedores que já criaram produtos para facilitar o movimento de pessoas com mobilidade reduzida . Em outubro passado, um grupo de pesquisadores conseguiu fazer um homem paralítico dos ombros para baixo caminhar. 

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Clinatec Endowment Fund
Exoesqueleto é controlado pelo cérebro do paciente


O feito foi obtido com a construção de um exoesqueleto equipado com sensores implantados próximo ao cérebro do paciente. Dessa forma, o cérebro envia os sinais diretamente para o exoesqueleto, que movimenta seus quatro membros, presos aos braços e pernas do homem.

Para a produção desse sistema, o paciente teve, por dois anos, que fazer diversos exercícios mentais para treinar o algoritmo . Assim, o código passou a entender sua maneira de pensar e, portanto, de enviar sinais que devem ser traduzidos como movimento pelos membros robóticos

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Por mais acessibilidade

E com o avanço das tecnologias , surgem não apenas formas de devolver movimento às pessoas, mas também opções para ajudar a enxergar, ouvir e se comunicar. Um exemplo é a plataforma Livox , criada pelo brasileiro Carlos Pereira. 

A filha de Carlos, Clara, tem paralisia cerebral e, por isso, não consegue falar. O pai, então, criou um software com inteligência artificial que permite que ela se comunique com as pessoas através de imagens que retratam aquilo que ela quer dizer. 

O sistema mostra opções como “eu quero” e “eu estou”, seguido de diversas opções, como comidas e brincadeiras. Assim, Clara vai clicando na tela do tablet , que projeta em voz alta aquilo que a menina quer dizer. 

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O software de comunicação alternativa acabou se tornando mais do que uma ajuda para Clara. O produto se tornou um aplicativo que já é utilizado por milhares de pessoas com limitações motoras, cognitivas ou visuais. 

Tecnologia sendo olhos e ouvidos

A criação de Carlos fez tanto sucesso que já rendeu diversos prêmios. Em 2015, o Livox foi premiado pela ONU como o melhor aplicativo de inclusão do mundo. E, por falar em aplicativo de sucesso, outro exemplo é o Be My Eyes , que promete ajudar pessoas cegas ou com visão limitada. 

Só na Play Store , o aplicativo já alcançou a marca de mais de um milhão de downloads. O software une pessoas que precisam de ajuda com quem se oferece a ajudar, criando uma comunidade global. 

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Para quem tem alguma deficiência visual, o aplicativo serve para pedir ajuda em tarefas diárias, como combinar as cores de um roupa ou encontrar algum objeto. Do outro lado da tela, está uma pessoa que resolveu baixar o aplicativo para ajudar alguém. 

O software conecta essas pessoas através de uma chamada de vídeo, considerando a língua falada e o fuso horário. Assim, quem se dispôs a ajudar é conectado a quem precisa de ajuda. 

Se o Be My Eyes dá olhos a quem não enxerga, outros sistemas visam dar voz e ouvidos a quem não consegue ouvir e falar. É o caso, por exemplo, do aplicativo Giulia , que ajuda deficientes auditivos a se comunicarem em Libras ( Língua Brasileira de Sinais ) com outras pessoas que não dominam a língua. 

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Através do aplicativo, a pessoa consegue ter os gestos em Libras traduzidos para o português, e vice-versa. A ideia é parecida com a do aplicativo Hand Talk , que usa o personagem Hugo para fazer a tradução de texto e voz para Libras.

Outra opção interessante é o Librol , um software que traduz textos em português para Libras escrito, ou seja, sem usar os sinais em si. A solução está presente em escolas, e ajuda os deficientes auditivos a entenderem o que os professores escrevem na lousa, por exemplo. 

O futuro é inclusivo

Cada vez mais, soluções tecnológicas têm sido criadas para ajudar pessoas com algum tipo de limitação, seja ela motora, visual, auditiva ou cognitiva. Para Ubiratan, esse tipo de criação deve ser ainda mais recorrente em um futuro próximo, já que o avanço das tecnologias têm ajudado na implementação dessas soluções. 

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No caso dele, o designer conta que as impressoras 3D já têm ajudado bastante no desenvolvimento de produtos para facilitar o movimento de pessoas com deficiências físicas. Com as impressoras, é possível gerar protótipos de maneira mais simples, otimizando o processo de criação. 

Do lado dos software , os avanços no aprendizado de máquina também favorecem o surgimento de mais tecnologias como o Livox e o Librol .

Agora, o objetivo de Ubiratan é alcançar o máximo de pessoas possível, já que os pedidos pelas luvas iguais às do maestro João Carlos Martins não param de chegar, e vêm do mundo todo. “Cada caso é um caso, então tenho que estudar cada um para ver se vai funcionar”, comenta.

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