Pane no Facebook, WhatsApp e Instagram aumenta pressão por quebra de monopólio
Paulo Higa
Pane no Facebook, WhatsApp e Instagram aumenta pressão por quebra de monopólio

 A queda por seis horas dos principais serviços do Facebook  — que incluem os apps Instagram e WhatsApp — nesta segunda expôs uma fragilidade que se acentuou com a pandemia: a dependência do funcionamento dessas plataformas em escala global.

É o que apontam especialistas em tecnologia ouvidos pelo GLOBO. Segundo eles, a interrupção dos serviços revelou a dependência das redes sociais da empresa, destacou a importância de diversificar os canais de comunicação na internet e trouxe à tona novamente o debate sobre a regulamentação das Big Techs.

Quebra de monopólio

Para Vivaldo José Breternitz, professor da Faculdade de Computação e Informática da Universidade Presbiteriana Mackenzie, a queda favorece o debate sobre a regulação das Big Techs, dado o poder de influência dessas empresas, tanto na esfera dos negócios, quanto na vida pessoal e política dos indivíduos ao redor do globo.

O professor lembra que, historicamente, órgãos americanos atuaram em prol da cisão da Standard Oil, grande conglomerado produtor de petróleo que monopolizava a extração, refino e distribuição de petróleo e que foi obrigada a se dividir. 

O mesmo ocorreu com a AT&T na virada dos anos 1970 para 1980, diz Vivaldo. A empresa de telecomunicações "praticamente monopolizava os serviços de telefonia e foi obrigada a se dividir".

Agora que os dados são considerados "o novo petróleo", como dizem especialistas, o cerco sobre a atuação das Big Techs deveria aumentar:

"Inclusive, já temos na história americana no começo do século XX a Standard Oil, que era um grande conglomerado produtor de petróleo que monopolizava a extração e refino e distribuição de petróleo foi obrigada a se dividir."

Diversificação dos canais

A diversificação dos canais de comunicação é a principal alternativa apresentada por especialistas em tecnologia para reduzir a prevalência de determinadas redes sociais no mercado. É o que aponta o coordenador do Centro de Tecnologia e Sociedade da FGV, Luca Belli:

"O que aconteceu hoje (ontem) é um Sputnik (referência ao primeiro satélite lançado pela então União Soviética ao espaço). Nos sentimos vulneráveis, como os Estados Unidos após o lançamento do Sputnik. A única medida para ficarmos seguros é diversificar nossos canais de comunicação", explica.

O professor da FGV acredita que o momento demanda uma reflexão sobre políticas públicas que incentivem a popularização de outras redes sociais, como o Telegram e o Signal.

A instabilidade nos canais do Facebook escancara, para o diretor do ITS-Rio Carlos Affonso Souza, o comodismo dos brasileiros ao usar as redes:

"A internet é mais do que essas três aplicações. No final das contas, quando se restringem a elas, acabam gerando um ecossistema no qual as pessoas acabam transitando durante o dia."

Belli acredita que a melhor forma de reduzir o monopólio da rede é garantir que operadoras de telefonia móvel mudem as estratégias de promoção de aplicativos, como WhatsApp e Instagram. Em muitas operadoras, os serviços não consomem dados móveis.

Como alternativa, ele sugere a extinção de aplicativos patrocinados, aos moldes da Índia, ou a garantia de que todas as aplicações de redes sociais terão as mesmas vantagens competitivas no mercado.

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Belli destaca ainda que a aplicação da interoperabilidade — comunicação transparente entre empresas para garantir que usuários possam trocar informações de maneira eficaz — pode ser uma boa saída.

Controle das big techs

O processo de regulamentação das gigantes da tecnologia levanta debates em vários países, principalmente devido ao temor dos trustes, fusão de empresas para garantir o monopólio de determinado setor da economia.

Os eventos de segunda, de acordo com Breternitz, servem para retomar o debate:

"Acredito que isso (essa queda dos aplicativos) pode gerar uma cisão do Facebook e também do Google porque existe grande preocupação nos Estados Unidos com esses trustes, que são poderosíssimos e não estão sujeitos a praticamente nenhum controle", afirma.

"Acho que as Big Techs devem ser divididas, isso também é bom (para a sociedade). Estamos deixando um poder enorme nas mãos de particulares, quase sem controle."

O diretor do ITS-Rio e professor de Direito na Uerj, Carlos Affonso Souza, reforça que o atual modelo de comunicaçao é falho, porque há a concentração de três das maiores aplicações de contato no Facebook. Além disso, ele reforça a relevância do debate crescente sobre o interesse do consumidor, já em pauta nos Estados Unidos:

"Vale observar como isso afeta a convers que já existe sobre qual é o melhor mecanismo para servir bem ao consumidor, e aparece muito no mercado americano. Envolvendo Amazon, Apple, em que o consumidor se vê prejudicado com a concentração de determinado serviços."

Ele destaca, entretanto, que os legisladores interessados em mitigar abusos empresariais na internet não devem se preocupar apenas em restringir atuação de determinadas empresas:

"A internet não é rede social, e isso é importante porque os nossos legisladores pensam que, para regular o futuro da internet, devem pensar nesses modelos."

Quebra da dependência

Outro ponto de atenção é o impacto das plataformas digitais sobre os negócios

"Uma coisa que empresas precisam se preocupar, especialmente as menores, é ter canais alternativos com seus clientes e parceiros de negócios. O faturamento de um dia pode ter ido embora e isso não é pouca coisa para nenhum tipo de empresa, inclusive para as pequenas que estão tentando manter a cabeça fora d'água nessa crise."

A pandemia, que acelerou o processo de digitalização no mundo, parece ter trazidos mudanças duradouras sobre a vida humana, diz Vivaldo. E a consequência desse poderio vai além dos impactos econômicos:

"A dependência (das plataformas) já vinha crescendo, aumentou durante a pandemia e não deve diminuir sensivelmente no pós-pandemia. As empresas e pessoas já perceberam que e melhor fazer certas coisas pela rede ao invés de pessoalmente. Mas tudo isso traz perigos não para os negócios apenas. A dependência das Big Techs é uma ameaça para a sociedade, para a democracia. Elas têm muito poder."


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