Spotify vem sendo boicotado por grandes artistas
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Spotify vem sendo boicotado por grandes artistas

Nos últimas dias, o Spotify está enfrentando uma das maiores polêmicas de sua história, com artistas renomados deixando a plataforma de streaming de música. O motivo é o mesmo que já colocou Facebook, Twitter, YouTube e outras empresas de mídias sociais sob os holofotes: desinformação.

O Spotify é acusado de promover a desinformação ao manter o podcast The Joe Rogan Experience no ar. O programa, apresentado pelo humorista norte-americano Joe Rogan, faz entrevistas sobre os mais variados temas e, por diversas vezes, apresentou informações falsas sobre a pandemia de Covid-19.

Em seu programa, Rogan afirmou que a vacina contra a Covid-19 pode alterar os genes das pessoas e que, para pessoas jovens, os riscos do imunizante são maiores que os da própria doença, por exemplo. As alegações são consideradas falsas por médicos, cientistas e órgãos oficiais.

A gota d'água aconteceu quando Rogan convidou o virologista Robert Malone para ser entrevistado em um episódio. Malone já havia sido banido do Twitter em dezembro passado justamente por propagar desinformação. No podcast não foi diferente, e ele fez várias alegações falsas sobre a Covid-19.

As primeiras reações

Logo depois da aparição de Malone no podcast, mais de 270 médicos e pesquisadores norte-americanos assinaram uma carta direcionada ao Spotify. No texto, os especialistas alertaram a plataforma que o programa repetidamente promoveu teorias de conspiração sobre a Covid-19 e incentivou a não vacinação.

Mesmo com o aviso, o Spotify nada fez. Com isso, artistas consagrados resolveram agir. O músico Neil Young foi o primeiro a remover todas as suas músicas do aplicativo em forma de boicote à postura passiva do Spotify.

Em seguida, nomes como Joni Mitchell e Nils Lofgren também deixaram a plataforma. O casal Harry e Meghan Markle, que tem uma parceria milionária com o Spotify,  cobraram atitudes mais proativas da empresa. A Casa Branca também já pediu que o Spotify "faça mais" para combater a desinformação.

A lista de personalidades e órgãos que se posicionam contra a plataforma cresce a cada dia, e a polêmica já fez o Spotify perder US$ 2 bilhões em valor de mercado .

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Spotify fala em censura

No domingo (30), depois da polêmica ter alcançado todo o mundo, o Spotify anunciou que vai rotular podcasts que falam sobre a Covid-19 . Nesse rótulo, os usuários poderão ser direcionados a uma página que traz informações confiáveis sobre a doença - no Brasil, podcasts de veículos de imprensa consagrados são indicados nesta aba.

Além disso, o serviço de streaming divulgou de forma mais transparente suas regras para "conteúdos perigosos". Nelas, o Spotify afirma que quem descumprir as regras pode ter conteúdo excluído e até a conta banida. Nas regras, a empresa afirma que é proibido "promover informações médicas falsas ou perigosas que podem causar danos offline ou representar uma ameaça direta à saúde pública".

Apesar de divulgar abertamente essas regras, que foram quebradas no podcast de Rogan, o Spotify não removeu o conteúdo do humorista e nem o baniu da plataforma. Pelo contrário, o CEO da empresa, Daniel Ek, disse que não quer censurar conteúdo. "É importante para mim que não assumamos a posição de censor de conteúdo, ao mesmo tempo em que nos certificamos de que existem regras e consequências para aqueles que as violam", escreveu.

Em 2020, o Spotify fechou um acordo com o podcast The Joe Rogan Experience para ter os direitos exclusivos pelo programa. Na ocasião, a empresa desembolsou US$ 100 milhões devido à popularidade do humorista, que carrega uma legião de fãs. De lá para cá, se esforçou para promover o programa, o que explica a complexidade do caso.

Não trata-se apenas de admitir que um criador de conteúdo promoveu desinformação, excluindo-o da plataforma. Trata-se de admitir que a própria plataforma promoveu desinformação.

Nesta semana, em sua conta no Instagram, Rogan publicou um vídeo de quase 10 minutos agradecendo o apoio dos fãs e do Spotify. Ele disse ser fã de Neil Young, um dos protagonistas da polêmica, e afirmou que concorda com os rótulos que a plataforma vai inserir em conteúdos relacionados à Covid-19.

"Eu estou interessado em dizer a verdade, e estou interessado em ter conversas com pessoas que têm opiniões diferentes", disse Rogan, acrescentando que aprendeu com os erros e quer colocar especialistas com opiniões diferentes dentro de um mesmo episódio.

** Dimítria Coutinho atua cobrindo tecnologia há cinco anos, se dedicando também a assuntos econômicos. Antes de trabalhar no iG, era repórter do Ada, um portal de tecnologia voltado para o público feminino. É jornalista formada pela Universidade de São Paulo com passagem pelo Instituto Politécnico de Lisboa.

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