
Um robô de quatro patas capaz de se fixar ao casco de navios e executar tarefas de soldagem pode ajudar a enfrentar um dos principais gargalos da indústria naval japonesa: a falta de profissionais experientes.
Desenvolvido pela Kawasaki Heavy Industries, o robô da Kawasaki usa inteligência artificial (IA) física para se movimentar por superfícies metálicas e avaliar o trabalho necessário nas juntas de solda.
Como funciona o robô da Kawasaki
A novidade foi apresentada em 6 de outubro, durante uma atualização da estratégia Visão 2030 do grupo japonês. O projeto foi noticiado pela NHK World e repercutido por veículos internacionais, como o vietnamita An Ninh Thu Do. O site especializado em transporte marítimo Marine Insight também publicou detalhes do desenvolvimento.
Com apenas 60 centímetros de altura, 44 centímetros de largura e 29 centímetros de espessura, o equipamento foi projetado para atuar diretamente na estrutura dos navios.
Eletroímãs permitem que ele se prenda ao casco. Câmeras e sensores examinam as junções metálicas e ajudam o sistema a decidir quanto material de soldagem é necessário em cada ponto.
Menos esforço em áreas de difícil acesso
Em estaleiros, a montagem e a soldagem de grandes partes de uma embarcação costumam exigir equipes especializadas e equipamentos capazes de alcançar pontos elevados.
O robô da Kawasaki pretende assumir parte dessas tarefas, inclusive em áreas de acesso complicado. A empresa também espera que a tecnologia facilite a continuidade dos trabalhos durante os períodos de calor intenso do verão japonês.
Falta de soldadores pressiona o setor
A proposta não é apenas substituir atividades manuais por máquinas. A companhia busca preservar e aplicar o conhecimento acumulado por profissionais experientes.
Segundo a Kawasaki, a escassez de soldadores qualificados deve continuar a pressionar o setor nos próximos anos. A dificuldade de transmitir técnicas e experiência às novas gerações é outro obstáculo para a indústria.
O plano é aproveitar o conhecimento dos trabalhadores veteranos para desenvolver sistemas de IA física capazes de orientar os robôs e executar tarefas de forma autônoma.
Quando o robô da Kawasaki começa a trabalhar?
De acordo com a Marine Insight, a Kawasaki pretende iniciar testes de demonstração em 2027, em sua fábrica de Sakaide, na província japonesa de Kagawa. A expectativa é que o equipamento possa entrar em uso prático em 2028.
Parceria com a Nvidia e gêmeos digitais
O projeto faz parte de um movimento mais amplo para ampliar a automação na construção naval.
Em julho, a Kawasaki anunciou uma parceria com a fabricante de chips Nvidia para combinar robótica, IA física, simulações e gêmeos digitais — representações virtuais de estruturas ou processos reais usadas para testar e aprimorar operações.
A iniciativa busca aproximar o projeto das embarcações de sua fabricação, com maior uso de robôs e sistemas autônomos. A empresa também pretende levar essas tecnologias a atividades de operação, manutenção e serviços navais.
Hitachi e Fanuc seguem caminho parecido
Outras companhias japonesas apostam em caminhos semelhantes. A Hitachi firmou uma parceria com a fabricante de robôs industriais Fanuc para desenvolver máquinas com IA voltadas a tarefas complexas nos setores de manufatura, logística e agricultura, com implantação prevista a partir do ano fiscal de 2027.
O desafio de transmitir conhecimento
Apesar das expectativas de ganhos de produtividade, a tecnologia ainda enfrenta um obstáculo importante: reproduzir em sistemas automatizados o conhecimento prático que profissionais experientes acumulam ao longo de anos de trabalho.
Para a Kawasaki, o sucesso do robô não depende apenas de sensores e eletroímãs. Depende de transformar décadas de experiência de soldadores veteranos em algo que uma máquina possa repetir — e, assim, manter de pé uma indústria que já sente a falta de mão de obra qualificada.