Veja como descobrir o que o Instagram sabe sobre você
Unsplash/Kate Torline
Veja como descobrir o que o Instagram sabe sobre você

Se me pedissem para fazer uma lista das coisas que eu gosto, muito provavelmente eu não passaria de 20 linhas. Mas o Instagram conseguiu fazer uma lista de 22 páginas e 415 itens sobre tudo o que eu gosto sem eu precisar dizer uma só palavra. Tudo o que eu fiz foi interagir.

Fiz o download de todas as informações que a rede social armazena sobre mim e o resultado foi surpreendente. Não apenas pelo conteúdo, mas também pela enorme quantidade de dados. 227 páginas de comentários, 1.344 tópicos aos quais estou mais suscetível a receber anúncios, 6.153 páginas de publicações que eu já curti, todas as figurinha que eu reagi em Stories durante todo o período em que tenho conta ativa no Instagram, 1.777 anunciantes e muito mais - coloca muito nisso.

Informações encontradas no download de dados do Instagram
Dimítria Coutinho/iG Tecnologia
Informações encontradas no download de dados do Instagram

De acordo com a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), as plataformas digitais devem fornecer cópias de todos os dados que possuem sobre os usuários caso eles solicitem. No caso das redes sociais, esse acesso é bastante simples. Para especialistas em privacidade, a experiência do download de informações pode ajudar na conscientização sobre privacidade e proteção de dados pessoais.

No meu caso, que baixei dados de Instagram, Twitter e Facebook, a primeira rede social foi a que mais me surpreendeu - com certeza porque é a que mais utilizo. Quando fazemos o download das informações, grande parte trata-se de dados produzidos pelos próprios algoritmos das redes sociais. Como eu uso mais o Instagram, ele sabe mais sobre mim.

Instagram está de olho

Um dos itens que mais me surpreendeu foi a aba "Seus Tópicos", que mostra "uma coleção de tópicos determinados por sua atividade no Instagram que é usada para criar recomendações para você em diferentes áreas do Instagram, como Reels, recomendações do feed e Compras", de acordo com a própria rede social.

Além de extensa, a lista de coisas que eu supostamente gosto tem itens muito específicos e que me deixaram surpresa por serem certeiros. Por outro lado, muitas das coisas que o Instagram acha que eu gosto estão erradas, como algumas celebridades que eu nem sabia quem eram.

Com essas informações, dá para ter uma boa noção dos motivos pelos quais as publicações que aparecem no meu feed estão por lá, já que os tópicos que o Instagram acha que eu gosto são realmente o tipo de conteúdo que eu mais recebo na rede social.

Outro aspecto que chamou minha atenção foram as mensagens diretas. Eu converso tanto com amigos pelo Instagram que acabo esquecendo que as mensagens não são criptografadas de ponta a ponta na plataforma. Isso significa que todas as mensagens trocadas ficam nos servidores da Meta - e também aparecem quando uma cópia dos dados é solicitada.

Ao todo, o Instagram me mostrou uma lista de 27 páginas com nomes de grupos e pessoas com quem já conversei, sendo possível clicar em cada uma das conversas. Só em um único grupo de amigos, apareceram mais de 3,3 mil páginas de mensagens trocadas.

Alguns dados chamam a atenção

Os 1.777 anunciantes que aparecem listados na aba "Anunciantes que estão usando as suas informações ou atividades" também foram uma surpresa. Perguntei à assessoria de imprensa do Instagram se isso se tratava de outras empresas que acessavam meus dados na rede social, mas a lógica é a inversa.

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"Esta é uma informação que os anunciantes compartilham conosco", respondeu o Instagram. "Para mostrar anúncios que sejam mais relevantes para você, recebemos e usamos dados fornecidos pelos anunciantes e outros parceiros sobre sua atividade nos sites e aplicativos deles, bem como algumas das suas interações offline, como compras. Podemos mostrar, por exemplo, um anúncio de uma camisa com base na sua visita a um site de roupas", explicaram.

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As informações que aparecem no download são referentes a todo o período em que minha conta no Instagram esteve ativa, desde a sua criação, há cerca de 10 anos. Por isso, tem muita coisa por lá, mostrando que o Instagram mantém nosso comportamento armazenado durante muito tempo.

Os únicos itens que têm data para expirar são "Anúncios clicados", "Anúncios visualizados", "Publicações visualizadas", "Vídeos assistidos" e "Pesquisas de palavras ou frases". Quando baixei os dados, percebi que essas abas só mostravam informações dos últimos meses.

"Segundo a nossa Política de Dados, mantemos os dados dos usuários pelo tempo necessário para oferecer nossos serviços e os Produtos da Meta, ou até que a conta seja excluída - o que acontecer primeiro. As pessoas têm a opção de baixar os seus dados no Instagram através do próprio app e, muitas vezes, essas informações não incluirão dados de anos anteriores ou de toda a existência da conta porque a plataforma retém dados somente durante o tempo necessário, o que é determinado caso a caso", esclareceu o Instagram.

Os dados apresentados, porém, foram os suficientes para eu perceber que, durante minha experiência na rede social, visualizei 39 anúncios em um único dia, no qual fiquei ativa por 1h25 na rede social.

Como baixar os dados no Instagram

Visualizar esses dados e analisá-los me deu uma boa dimensão dos motivos pelos quais eu recebo cada publicação e anúncio. Também foi um lembrete para cuidar melhor dos meus dados, como impedir o compartilhamento de informações de anunciantes ou escolher aplicativos com criptografia de ponta a ponta para manter minhas conversas mais ativas.

Se você quiser baixar os dados que o Instagram armazena sobre você, siga o passo a passo abaixo. O download dos dados pode ser feito diretamente no aplicativo do Instagram e pode demorar até 48 horas após a solicitação.

Atenção! Ao fazer o download, mantenha as informações em um dispositivo seguro. Também é aconselhado deletar esses dados após verificá-los e analisá-los. Se as informações forem expostas no seu dispositivo, a rede social não tem responsabilidade.

  • No seu perfil, clique no menu de três riscos no canto direito superior;
  • Vá em "Configurações";
  • Clique em "Baixar dados" e depois em "Solicitar download". A rede social vai te avisar quando o arquivo estiver pronto para ser baixado.


Como ter mais proteção de dados no Instagram

O download dos dados é o primeiro passo para se conscientizar sobre privacidade e proteção de dados pessoais. Depois disso, é necessário manter uma rotina de cuidados.

Jaqueline Trevisan Pigatto, pesquisadora em governança da internet na Associação Data Privacy Brasil, aconselha que os usuários olhem com frequência as configurações de privacidade das plataformas e restrinjam o acesso aos dados. Confira algumas formas de fazer isso no Instagram:

  • Restringir o compartilhamento de dados: se você não quer que sites e aplicativos parceiros transfiram suas informações para o Instagram, é possível desligar essa configuração. Para isso, vá nas "Configurações", clique em "Anúncios" e, depois, em "Dados sobre a sua atividade de parceiros". Lá, é possível desligar o compartilhamento de dados com Facebook e Instagram. Leia os detalhes antes de tomar sua decisão.
  • Apagar cookies e cache: assim como em navegadores, é possível apagar cookies e cache de sites que você visitou a partir do Instagram. Para isso, clique em "Configurações", depois em "Conta" e, em seguida, "Configurações do navegador". Depois, toque em "Apagar".
  • Controlar quem compartilha seu conteúdo: para evitar que suas publicações apareçam em guias criadas por outras pessoas, clique em "Configurações", depois em "Privacidade", em seguida em "Guias" e, por fim, desative o botão.
  • Restrinja seu conteúdo: se você não usa o Instagram profissionalmente, vale a pena restringir o perfil e utilizar ferramentas como "Melhores amigos" para manter suas informações privadas. Para ter uma conta privada, vá em "Configurações", depois em "Privacidade" e ative o botão "Conta privada".

Twitter e Facebook

Cada rede social tem sua particularidade na coleta, armazenamento e criação de dados dos usuários. Além do Instagram, fiz o download das minhas informações no Twitter e no Facebook e analisei tudo o que encontrei.

Esta reportagem faz parte de uma série. Confira as demais:

** Dimítria Coutinho atua cobrindo tecnologia há cinco anos, se dedicando também a assuntos econômicos. Antes de trabalhar no iG, era repórter do Ada, um portal de tecnologia voltado para o público feminino. É jornalista formada pela Universidade de São Paulo com passagem pelo Instituto Politécnico de Lisboa.

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